O recuo de 6% na área plantada mostra um agricultor temeroso em repetir o resultado abaixo do esperado dos últimos dois anos
O recuo de 6% na área plantada mostra um agricultor temeroso em repetir o resultado abaixo do esperado dos últimos dois anos | Foto: Marcos Zanutto/11-09-2014

O plantio de trigo começa a engrenar no Paraná com a expectativa de redução da área plantada em 6%, na comparação com a safra 2017/18, segundo o Deral (Departamento de Economia Rural) da Seab (Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento). O recuo, ainda que pequeno, mostra um agricultor temeroso em repetir o resultado abaixo do esperado dos últimos dois anos, quando houve quebras de safra causadas pela seca. A perspectiva de queda nos preços com uma maior safra argentina e com a maior importação de grãos por acordos comerciais federais também mexe com a previsibilidade da cultura.

A área deve cair de 1,100 milhão no ciclo 2017/18 para 1,035 milhão de hectares (ha) em 2018/19, conforme o Deral. No entanto, há perspectiva de que o Estado conte com menor quantidade de problemas climáticos. Se confirmado, a produção pularia de 2,824 milhões para 3,325 milhões de toneladas (t), volume 8% maior mesmo com a redução de espaço ocupado.

O analista de trigo do Deral, Hugo Godinho, afirma que chega a parecer estranho que os produtores deixem de plantar trigo em um cenário de preços convidativos e acima dos custos de produção. O preço por tonelada fechou nesta segunda-feira (22) em R$ 889,05, aumento de 45% desde os R$ 611,31 da última semana de abril de 2017 e de 11% desde os R$ 797,66 do mesmo período no ano passado, segundo o Cepea/Esalq (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). “O produtor está mais receoso pelo passado, depois de perder um pouco nas últimas duas safras, e também pode estar olhando para o futuro, porque o preço pode não se sustentar daqui a três meses, quando começar a colheita”, diz.

Godinho considera que a flutuação do câmbio, a cotação internacional e a possibilidade de entrada de mais trigo argentino e norte-americano no País podem influenciar a receita no Paraná. Isso porque a quebra de safra também afetou a nação vizinha em 2018 e o governo brasileiro aceitou neste ano abrir uma cota fixa de importação de 750 mil toneladas, pouco mais de 10% do que compra do grão no exterior, sem sobretaxas, conforme demanda antiga dos Estados Unidos junto à OMC (Organização Mundial de Comércio) e que foi implantada neste ano pelo presidente Jair Bolsonaro a pedido do chefe de estado dos EUA, Donald Trump. “É trigo que deve chegar mais barato, principalmente ao Nordeste, mas que pode vir não apenas dos EUA, mas da Rússia, que também deve produzir mais”, cita.

Para as cooperativas paranaenses, há ainda um fator de pressão. O Estado é o maior produtor do grão, com quase 70% do que é colhido no País, de acordo com a Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná). Ainda, concentra ao menos um quarto dos moinhos. “As cooperativas fomentam o plantio de trigo pela importância da cultura no sistema como um todo. Além do valor econômico, as cooperativas contam com moinhos e precisam estar abastecidas para melhorar a rentabilidade dos associados”, diz o analista de desenvolvimento técnico da Ocepar (Organização das Cooperativas do Estado do Paraná), Maiko Zanella.

Por outro lado, o consumidor contará com preços menores ao comprar derivados do trigo, principalmente pães e massas. Para Zanella, porém, o mercado paranaense deve se ajustar. “Se o trigo não vier dos EUA, viria da Argentina. Importamos mais do que produzimos no ano passado”, complementa.


Decisão vai divergir segundo cada região

A Embrapa Trigo soltou relatório na última quinta-feira (18), no qual aponta a tendência de opção pelo milho na região Norte do Paraná, devido à baixa produtividade do trigo em anos anteriores. Nos Campos Gerais e no Centro-Sul, o risco de geada no fim do ciclo do milho faz com que a preferência se inverta e, no Oeste, os produtores decidem de acordo com preferências pessoais e pela janela de cultivo.

Porém, o órgão aponta a importância de cultivar trigo dentro de um contexto de rotação no sistema de produção, já que o grão apresenta uma contribuição significativa para a cultura semeada na sequência, seja soja ou milho. “Existe uma importância do trigo para a nutrição da terra e para a proteção do solo com a palhada durante o inverno, que garantem um melhor resultado para a soja”, diz o analista de desenvolvimento técnico da Ocepar (Organização das Cooperativas do Estado do Paraná), Maiko Zanella.

O analista de trigo do Deral, Hugo Godinho, cita um outro fator que foi levado em conta pelo produtor para planejar o plantio de inverno. “O preço da soja não está tão bom como em outros anos e muitos vão querer aproveitar logo o início da janela de plantio de verão para tentar pegar preços melhores. Se optarem pelo milho, podem ir a campo antes”, cita.

Imagem ilustrativa da imagem Produtores de trigo reduzem área plantada no Paraná
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