Produtores de trigo preparam protesto
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sábado, 27 de novembro de 2004
Célia Guerra e<br>Mariana Guerin<br>Reportagem Local 
Preocupados com o comercialização da safra de trigo deste ano e a falta de um plano para de 2005, produtores do Paraná articulam uma forte mobilização para expressar o descontentamento do setor com o governo. Em manifestação marcada, inicialmente, para o dia 16 de dezembro, pretendem colocar colheitadeiras e tratores na porta de agências bancárias.
O assunto foi comentado ontem durante debate promovido pela Folha Rural sobre o ''Futuro do Trigo no Paraná'', que reuniu presidentes de cooperativas, dirigentes da indústria moageira, representante da Faep, Banco do Brasil, Associação Brasileira das Bolsas de Mercadorias e pesquisadores da Embrapa e Iapar.
O debate, que teve o apoio do Sindicato Rural de Londrina e do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitarias no Norte do Paraná (Sindpanp) serviu para expôr gargalos da cadeia produtiva do trigo. E e a revolta do ponta produtora.
Segundo Eliseu de Paula, presidente da Cooperativa Corol, de Rolândia (25 km a oeste de Londrina), os boatos de um ''levante'' da categoria são cada vez mais reais, pois o mercado não tem garantido nem mesmo o preço mínimo. O cenário aponta para um desânimo maior para a safra 2005. ''Tem produtor pensando em não plantar mais um único pé de trigo'', desabafou.
O representante do Sindicato Rural, Rafael Figueiredo, ilustrou o momento vivido pelos triticultores: ''Estão todos com a corda no pescoço. Agora é a hora de mudanças'', alertou.
Apesar da eficiência dos produtores e técnicos brasileiros, o setor sempre enfrentou a concorrência do trigo argentino, com preços mais baixos. Para as lideranças, falta vontade política do governo federal ao tratar o assunto. Com isso, os produtores estão cada vez mais desestimulados e não querem investir na cultura o que é péssimo para os consumidores e a economia do País que não pode depender apenas do trigo importado.
O Brasil precisa do trigo produzido pelos brasileiros. A demanda nacional é de mais de 10 milhões de toneladas para uma produção de cerca de 6 milhões de t de trigo. O Paraná é o maior produtor, responsável por mais de 3 milhões de t. Devido à concorrência externa, esta produção, mesmo pequena, não é absorvida pelo mercado nacional. Eliseu de Paula destacou que do total produzido no Estado, em 2004, apenas 1 milhão de t foram comercializadas até agora. ''É um impasse que precisa ser resolvido com urgência''.
Sérgio Dotto, pesquisador da área de trigo na Embrapa, informou que o País já possui variedades que atendem as três categorias de teor de glúten exigidas pela indústria (brando, pão e melhorado), com qualidade que supera o trigo argentino. ''Falta informação aos produtores e às cooperativas sobre a segregação das variedades'', disse.
O presidente da Cooperativa Integrada, Carlos Murate, observou que o segmento da produção deve perseguir o fator qualidade e também fazer sua parte para cobrar mais compromisso da indústria.
A capacidade produtiva do País, de acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes (Abrasem), Ywao Miyamoto, permitiria uma produção de 13 milhões de t de trigo. ''Com incentivos governamentais atenderíamos a demanda nacional e ainda teríamos um bom excedente para exportação'', defendeu. Para ele, a solução seria a organização do setor por meio da criação de uma câmara setorial do agronegócio no Paraná, na qual o setor seria melhor defendido.
Além da ausência de uma política agrícola eficiente, Luiz Roberto Ferrari, presidente da Associação Brasileira das Bolsas de Cereais, criticou a falta de logística. Segundo ele, hoje existem no País apenas quatro navios brasileiros que escoam a produção para o Norte e Nordeste, onde está a maior demanda pelo grão. No início do ano, essas embarcações precisam ser remanejados para o escoamento da safra de verão. Na reunião, ele sugeriu que o governo federal autorizasse a participação de navios de diferentes bandeiras na cabotagem (transporte de porto a porto) do trigo. (Colaborou Cláudia Barberato)


