Produtores agrícolas que pretendem plantar milho na segunda safra, a chamada ‘‘safrinha’’, a partir de fevereiro, estão preocupados com a possível dolarização dos preços da semente. De acordo com a Organização das Cooperativas do Paraná, há informações de que fornecedores de sementes estão tentando dolarizar os preços do produto para se proteger da desvalorização cambial. No entanto, diz o agrônomo Flávio Turra, os produtores não estão aceitando a dolarização e estão acontecendo negociações para reajustar os preços das sementes, mas os desvinculando do dólar.
O argumento dos produtores agrícolas contra a dolarização é que a semente de milho é produzida no Brasil, que o banco de germoplasma é nacional, e por isso não haveria razões para a mudança. Apesar da preocupação, Turra acredita que a intenção de plantio de ‘‘safrinha’’ só será afetada caso a alteração nos preços das sementes seja muito grande. Isso porque o setor trabalha com uma perspectiva de bons preços na venda da safra.
No interior paulista, uma cooperativa informa que comprou sementes para plantio do milho ‘‘safrinha’’ de dois fornecedores em dezembro. Metade do volume comprado foi entregue e o restante deveria estar na cooperativa na primeira quinzena de janeiro, o que não ocorreu. Fonte da cooperativa acredita que o atraso na entrega se deva à desvalorização cambial. Os fornecedores, no entanto, justificam que o produto ainda está sendo processado, por isso não foi entregue.
A obtenção de recursos no exterior para financiar a produção, a estocagem e a distribuição das sementes pode explicar a necessidade de uma possível dolarização dos preços, diz o secretário-executivo da Associação Paulista dos Produtores de Sementes (APPS), Cássio Camargo. Segundo ele, várias empresas buscam recursos no exterior para produzir as sementes e isso se torna ‘‘tecnicamente’’ um componente do custo de produção. De acordo com Camargo, a desvalorização cambial levou empresas do setor de sementes a suspender as vendas e a deixar de aceitar pedidos na última semana, mas agora elas retomaram as negociações.
O secretário-executivo da APPS informou que não há um padrão de procedimento entre as cerca de 30 empresas produtoras de sementes de milho no País em relação aos preços. ‘‘Há empresas que podem estar tentando repactuar negócios e outras, que estabeleceram vendas vinculadas ao dólar’’, afirmou, sem citar quais seriam as empresas. Camargo disse ainda que, caso haja a dolarização dos preços, apenas uma parte do volume de sementes destinadas ao plantio de ‘‘safrinha’’ seria afetado. Ele acredita que, de um total de 30 mil toneladas de sementes produzidas para o plantio da segunda safra, 70% tenham sido comercializados.
O diretor da Braskalb, empresa do grupo Monsanto, José Amauri Dimárzio, informou que a firma não paralisou as vendas de semente de milho após a desvalorização cambial e nem alterou a tabela de preços. ‘‘Analisamos a situação e concluímos que tivemos perdas (...), mas, no momento atual, não é possível reajustar’’, afirmou. Segundo ele, o agricultor terá os custos ampliados porque precisará comprar fertilizantes e defensivos que sofreram correção cambial.
Ainda segundo Dimárzio, a semente que está sendo comercializada hoje pela Braskalb tinha sido produzida antes da desvalorização. Por isso, não carrega os custos do dólar mais caro. A saca de 60 mil sementes de híbridos duplos e triplos continua a ser comercializada entre 30 reais e 58 reais para consumidor, com pagamento em abril, segundo o diretor da Braskalb. Dimárzio admite, no entanto, que a situação dos preços das sementes para a safra de verão 1999/2000 está indefinida. As sementes começam a ser colhidas em fevereiro, serão comercializadas a partir de junho e vão carregar os custos da desvalorização cambial. Além disso, com a suspensão de EGF para sementes, os produtores terão de obter recursos de outra forma, afirmou o diretor da Braskalb.
Outra importante empresa da área de sementes também manteve os preços em real, mas fonte do Departamento de Comercialização afirmou que ainda não há uma definição sobre que política de preços será adotada. ‘‘As empresas não sabem o que fazem, se vão dolarizar os preços, já que os insumos para produção são dolarizados’’, disse. Ela argumentou ainda que as empresas têm dívidas em dólar, uma vez que não existe financiamento oficial.

mockup