Produtor paga o preço do refugo da soja pela China
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de junho de 2004
Vânia Casado<br>Equipe da Folha 
Curitiba - O produtor já está pagando o preço do refugo da soja pela China. Só no mês de maio o preço do grão já caiu 20% no mercado interno. Do começo do ano para cá, o preço da soja já caiu US$ 100 por tonelada de acordo com a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) e US$ 63 a tonelada segundo informações da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar). A Anec contabiliza um prejuízo de US$ 600 milhões.
As exportações de soja para a China estão suspensas porque nenhum exportador está seguro em enviar suas cargas, temendo a devolução. ''É impossível enviar grãos com índice zero de mistura como estão exigindo os chineses'', disse Sérgio Mendes, presidente da Anec. Para Mendes, os contratos firmados previam enviar 5 milhões de toneladas de soja, foram enviados 3 milhões. Faltam 2 milhões e ele não está otimista em relação a essa complementação dos contratos.
O empresário admitiu que os chineses estão querendo renegociar os contratos, porque compraram a soja em período de alta nas cotações e agora querem pagar bem menos porque tiveram seus créditos restritos pelo governo. Os chineses estão alegando falta de sanidade dos grãos para dar um respaldo legal às devoluções.
No último mês foram devolvidas quatro cargas de soja brasileira pela China, sendo que três delas foram exportadas pelo Porto do Rio Grande (RS) e uma pelo Porto de Santos (SP). O empresário não soube dizer para onde está sendo direcionada a carga refugada. Ele descartou a volta dessas cargas para o Brasil porque o prejuízo seria ainda maior do que o calculado. ''Certamente os vendedores estão negociando essa carga com deságio para países da região mesmo'', afirmou.
De acordo com Mendes, os embarques de soja para a China deverão ser retomados após a interferência do governo brasileiro em negociações na próxima semana. ''A comercialização é feita entre vendedores e compradores, mas num caso como esse a negociação com os chineses será feita a quatro. Inicialmente os governos e depois compradores e vendedores'', disse.
O empresário adiantou que o governo brasileiro deverá partir da informação prestada pelo USDA - órgão para agricultura do governo norte-americano - que o mercado internacional admite a mistura de até três sementes por quilo. Segundo Mendes, a tolerância zero é impraticável no mercado externo e os ''chineses estão querendo uma legislação sobre o impraticável''.
Apesar da tentativa de renegociação, Mendes apelou ao produtor brasileiro que seja mais consciente em relação às cargas que envia para o porto. Segundo ele, a mistura de grãos configura um crime e não pode acontecer.
A devolução da soja não atingiu as exportações feitas pelo Paraná, mas caiu como uma bomba sobre toda a produção brasileira. ''O prejuízo está sendo para todos'', admitiu o superintendente da Ocepar, Nelson Costa. O produtor que chegou a vender a soja por US$ 17 a saca em abril, agora tem que vender por US$ 13 a saca.


