Rio de Janeiro - Em janeiro, a indústria brasileira saiu apenas acanhadamente do fundo do poço a que chegara em dezembro. O aumento mensal de minguados 2,3% na produção foi muito aquém do previsto pelo mercado, que apostava em crescimento entre 4,2% e 11%. Os dados do IBGE mostram que a perspectiva de recuperação industrial é muito mais lenta do que se esperava, o que fica mais evidente diante da queda de 17,2% na comparação com janeiro de 2007. Este foi o pior resultado em 18 anos. A atividade fraca motivou palpites mais elevados de corte na taxa básica de juros (Selic) na próxima semana.
''A tendência da produção continua negativa, apesar de ter parado de cair ante mês anterior'', atestou o coordenador de indústria do IBGE, Silvio Sales. ''Tal resultado não deve ser interpretado como uma tendência de recuperação. O que ocorre é um ajuste dos níveis de produção após a fortíssima queda observada nos três meses finais de 2008'', alerta, em relatório, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).
A alta acumulada na produção em 12 meses até janeiro, de apenas 1%, é a pior para esse indicador desde fevereiro de 2004. Em apenas quatro meses, entre outubro e janeiro, o setor industrial registrou um recuo acumulado de 18,2%.
''Pior seria se ainda houvesse queda ante mês anterior, mas não se sabe se a indústria iniciou um processo de inflexão ou, se iniciou, se será suficiente para uma recuperação'', observou Sales. A alta ante mês anterior interrompeu um ciclo de três meses de queda. Apesar disso, em janeiro, o patamar de produção da indústria recuou aos níveis de março de 2004, mas esteve um pouco superior ao alcançado em dezembro do ano passado.
Com os resultados da indústria abaixo do esperado, alguns analistas de mercado revisaram a projeção de corte na Selic na reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) na próxima semana, de 1 ponto para 1,25 ou 1,5 ponto porcentual. Hoje, após o corte de um ponto em janeiro, a taxa está em 12,75%.
O economista-chefe da Quest Investimentos, Paulo Pereira Miguel, fez a revisão e acrescentou meio ponto à sua expectativa, que subiu para 1,5 ponto. ''A produção foi mais um elemento. Mas, às vezes, o que se precisa é da gota d'água'', considerou. Segundo ele, a atividade apresentará um período de fraqueza maior e por um período mais longo do que o imaginado inicialmente, enquanto a inflação também prossegue com tendência de baixa.
Sergio Vale, da MB Associados, também revisou sua estimativa. ''Os dados da indústria elevam o espaço para que o Banco Central adote um corte mais intenso dos juros na próxima quarta-feira. Esperamos uma redução de um ponto porcentual da Selic, mas pode ser que seja 1,25 ponto porcentual ou algo superior'', disse.
Os economistas da LCA Consultoria não revisaram a projeção de corte de 1 ponto para este mês, mas sim para as próximas reuniões. ''A principal implicação desse resultado abaixo do esperado da produção industrial deverá ser sobre nossa projeção para a taxa Selic nos próximos meses, que poderá ser revista para baixo, especialmente da reunião do Copom de abril em diante'', disse. (Colaboraram Célia Froufe e Ricardo Leopoldo)

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