Produção e geração de energia em debate
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terça-feira, 30 de outubro de 2007
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Substituir o petróleo como matéria prima de energia por combustíveis vegetais com a garantia de participação dos pequenos agricultores no processo de produção e geração da energia, além de adotar novas alternativas de transporte nas grandes cidades. São essas algumas das alternativas apontadas, ontem, por um dos líderes nacionais do Movimento dos Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, para se contrapor à atual política energética adotada pelo mundo, que tem os combustíveis fósseis como principal matriz energética.
Stédile é um dos palestrantes da Conferência Nacional Popular sobre Agroenergia, organizada pela Via Campesina, que acontece em Curitiba até amanhã. No encontro, especialistas em energia e integrantes de movimentos sociais do Brasil e América Latina fazem uma análise do contexto internacional e nacional da energia e dos recursos naturais, com objetivo de construir propostas de alternativas que preservem a autonomia e soberania dos países.
''É preciso um debate sério sobre os destinos do País em relação à soberania energética e à soberania alimentar'', defendeu Célio Berman, professor da Universidade de São Paulo (Usp), especialista em energia. De acordo com ele, 81% da energia consumida pelo mundo é derivada de combustíveis fósseis, sendo 35% do petróleo, 25% do carvão mineral e 20,7% do gás mineral.
''É razoável continuar queimando esses combustíveis fósseis?'', questionou Pablo Bertinat do Cone Sul Sustentável, lembrando, ainda, os problemas ambientais causados com a emissão de gases de feito estufa. Mas substituir essas fontes energéticas por agrocombustíveis, segundo Berman, só é possível se houver também alteração dos padrões de produção e consumo.
Como exemplos, cita a produção de biodiesel - feita principalmente a partir de mamona e soja - que restringe a agricultura familiar à produção de grãos, sem ter acesso ao processo de fabricação do biodiesel, o que fica concentrado nas mãos das grandes empresas. Outro exemplo é o cultivo da cana-de-açúcar para produção de etanol, que já ocupa 7 milhões de hectares no País. A monocultura da cana, segundo Stédile, já traz danos para o País. ''A monocultura aumenta a o nível de veneno na terra, destrói a biodiversidade, altera o ciclo das chuvas. Estudos também mostram que na área de monocultura a temperatura já aumentou 2ºC nos últimos dez anos'', enumera.
A alternativa apontada por ele é a produção de biocombustíveis por pequenos agricultores em sistemas que garantam o plantio de diferentes culturas, acabando com a monocultura da cana-de açucar. Outra mudança defendida por ele é a operação de pequenas usinas em sistema de coopetaiva pelos agricultores, e não sua operação por multinacionais, como ocorre hoje.
Para acabar com os problemas causados pelo atual modelo energético - escassez de petróleo, aquecimento global e efeitos perversos da poluição - segundo Stédile, não adianta apenas trocar o uso de petróleo pelos agrocombustíveis. É preciso também adotar novas alternativas de transporte, em especial nas grandes cidades.


