Produção de veículos pode cair até 31%
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de janeiro de 1999
Agência Estado 
A produção brasileira de veículos corre o risco de alcançar apenas 1,1 milhão de unidades este ano, 31% a menos do que em 1998. A expectativa, do diretor de Recursos Humanos da Ford, Carlos Augusto Marino, é a pior já divulgada pelo setor, que oficialmente trabalha com a previsão de montar 1,4 milhão de veículos. Segundo o diretor, alguns projetos, como o de renovação da frota, poderão alterar esse quadro, mas ainda assim as dificuldades serão grandes porque o consumidor estará retraído em razão do agravamento da crise econômica. Não temos nenhuma ilusão de que o mercado voltará a ser o que era, disse.
Para ele, todas as compras de bens que exigem financiamentos por causa do seu alto valor ficarão prejudicadas. O sistema de leasing respondeu no ano passado por 22% das vendas de veículos no mercado interno como um todo e os preços das parcelas foram corrigidos pela variação cambial ou com juros. Segundo Marino, com a desvalorização do real frente ao dólar e com o aumento das taxas de juros, o consumidor evitará adquirir bens por esse sistema.
No caso dos consórcios, a restrição ficará por conta do medo da população de enfrentar dívidas de longo prazo num cenário de incertezas e desemprego, lembrou o executivo. Some-se a isso as previsões de inflação, entre 7% e 10% no ano, sem que salários tenham hoje nenhum mecanismo de proteção do poder de compra.
Marino disse que a Ford, ao decidir cortar 41% do efetivo da fábrica de São Bernardo do Campo, está levando em conta essa nova realidade, assim como a necessidade de tornar a empresa mais competitiva diante da novas montadoras que estão se instalando no Brasil. Ele comparou o enxugamento de quadro a situação de um paciente que tem como recomendação médica a amputação de um pé. É uma medida dolorida, mas que se destina a salvar o organismo, disse. Para ele, com um excedente de 2,8 mil funcionários, a fábrica do ABC não teria condições de continuar competitiva.
A esperança de um incremento de vendas por meio do projeto de renovação da frota, para o diretor, não é a mesma para todas as montadoras. O maior incentivo previsto é o pagamento de bônus de R$ 3,4 mil para proprietários de veículos com mais de 15 anos de uso que queiram trocá-lo por um zero quilômetro movido a álcool. A Volkswagen e a Fiat, disse Marino, tem prontos projetos para reativação de produção de carro a álcool. Já a Ford, não tem nenhum, e levará tempo para desenvolver um produto assim.


