Produção de cachaça cresce 72% no Paraná em um ano
Com 74 estabelecimentos registrados, Estado ganha duas posições no ranking nacional e reforça a presença da bebida em 45 municípios
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Com 74 estabelecimentos registrados, Estado ganha duas posições no ranking nacional e reforça a presença da bebida em 45 municípios

O setor de produção de cachaça no Paraná apresenta uma trajetória de estruturação e consolidação. Segundo dados estatísticos divulgados pela Secretaria de Defesa Agropecuária do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), o Estado ocupa a sétima colocação no ranking nacional em número de estabelecimentos elaboradores de cachaça registrados, somando 74 unidades ativas.
Os números estão reunidos no Anuário da Cachaça 2026 e tomam como referência o ano de 2025. O documento aponta avanço da atividade produtora da bebida em território paranaense. Em 2024, eram 43 estabelecimentos e o Estado ocupava a nona colocação no ranking brasileiro. Em um ano, o crescimento foi de 72%.
Atualmente, dos 399 municípios paranaenses, 45 contam com pelo menos uma unidade produtora registrada no Mapa, o que corresponde a mais de 11% do total. Além disso, o Paraná se destaca pela diversidade de rótulos oferecidos ao mercado, reunindo 406 produtos registrados e 553 marcas em circulação. Em todo o país, são 11.131 marcas, número que cresceu 16,8% na comparação com 2024.
Conforme a publicação, esse produto genuinamente nacional tem ganhado relevância na cadeia produtiva de bebidas do país e o crescimento observado no período analisado é um demonstrativo do potencial de expansão desse setor. Desde o início da série histórica, o número de estabelecimentos registrados saltou de 951, em 2018, para 1.538 estabelecimentos elaboradores de cachaça registrados no Brasil, alta de 61,72%. Sobre 2024, o avanço foi de 21,48%. O ano passado foi o de maior crescimento relativo e absoluto no período estudado.
O anuário considera estabelecimento elaborador de cachaça todo aquele que produz, padroniza, envasa ou atua como atacadista de cachaça que disponha de instalações, equipamentos e capacidade técnica para a execução dessas atividades. Os exclusivamente exportadores não entram na estatística.
Região Sul
Quando se olha para a distribuição geográfica, o desempenho do Paraná acompanha o observado em toda a Região Sul, que se posiciona como a segunda maior produtora de cachaça do país. Somando o Paraná, com suas 74 unidades, Rio Grande do Sul, com 106 estabelecimentos produtores, e Santa Catarina, com 97 registros, a região conta com 277 estabelecimentos ativos, sendo responsável por uma fatia de 18,0% no país, atrás apenas do Sudeste, que lidera com 961 estabelecimentos ou 62,5% do total.
O Sul também se destaca em ritmo de expansão, com o maior crescimento relativo do país no ano passado. A alta foi de 51,4% em número de estabelecimentos, um ganho de 94 novas unidades em relação ao ano anterior.
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Apesar de os indicadores apontarem uma trajetória consistente de expansão, o setor avalia que os resultados ainda estão abaixo do potencial da cachaça brasileira. “Os dados demonstram a expansão e a resiliência de uma cadeia produtiva presente em todas as regiões do Brasil e formada majoritariamente por pequenos e médios produtores. Ao mesmo tempo, evidenciam que ainda estamos distantes do verdadeiro potencial da cachaça, especialmente no mercado internacional. Apesar dos avanços registrados, a exportação de cachaça, por exemplo, continua em um patamar pouco expressivo, especialmente quando consideramos o tamanho do setor e o mercado internacional de destilados”, destacou o presidente do Ibrac (Instituto Brasileiro da Cachaça), Vicente Bastos.
No ano passado, a cachaça brasileira foi importada por 76 países, em todos os continentes, ultrapassando os 7,95 milhões de litros da bebida, crescimento de 19,4% sobre 2024. Em valores, as vendas ao mercado externo aumentaram em 17,4%, somando US$ 17,07 milhões.
Para ampliar a presença do produto no mercado, Bastos considera fundamental superar desafios estruturais, entre eles, a elevada carga tributária incidente sobre a cachaça e a falta de isonomia tributária no segmento de bebidas alcoólicas, fatores que comprometem a competitividade do setor. “Esses resultados reforçam a importância de fortalecer políticas públicas e ampliar as ações de promoção, valorização e proteção da cachaça, em parceria com instituições públicas e privadas, para que esse patrimônio genuinamente brasileiro ocupe o espaço que merece no Brasil e no mundo.”
Apesar do crescimento no número de estabelecimentos, produtos, marcas e exportações, destacou o Ibrac, o anuário registrou que o volume de produção declarado em 2025 foi de 234,48 milhões de litros, redução de 15,77% em relação ao ano anterior.
Tradição secular
A produção de cachaça se estende por todas as regiões do Paraná. Uma das mais tradicionais é o Litoral. Em Morretes, a história conta que os primeiros alambiques foram construídos ainda no início do século 18, antes mesmo da fundação oficial do município, em 1733.
A tradição rendeu um verbete nos dicionários Aurélio e Houaiss, que trazem o termo “morretiana” como sinônimo para aguardente. E em dezembro de 2023, a cachaça produzida em Morretes conquistou o registro de IG (Indicação Geográfica), concedido pelo Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), na modalidade Indicação de Procedência. A certificação reconhece o valor histórico, o processo artesanal em alambiques e a fama da região.
Morretes chegou a ter mais de 60 produtores artesanais de cachaça. Nos anos de 1960, porém, com o avanço da produção da bebida em massa, impulsionada pela industrialização e pela expansão das grandes destilarias, juntamente com uma legislação que favoreceu as grandes marcas em detrimento da produção tradicional e em menor escala, muitos alambiques fecharam as portas no país. No Litoral paranaense não foi diferente.
A cidade histórica, lentamente, recupera esse legado. Hoje, há três alambiques ativos. Um deles, a Casa Poletto, criado pelo catarinense radicado em Curitiba, Sadi Poletto, produz, desde 2012, o rótulo Ouro de Morretes, premiado internacionalmente. “Nós temos uma cana diferente, um solo diferente e um processo de fazer local, que é típico e acaba resultando em uma cachaça extraordinária. Nossa cachaça não está em grandes distribuidores. É um produto nobre e focamos no cliente premium. Buscamos um mercado bem seletivo, bem específico.”
Um dos motivos para a alta qualidade do produto que sai do alambique de Poletto são os descansos de cerca de cinco anos em barris de carvalho. Atualmente, são engarrafados 20 mil litros anuais e não há previsão de crescimento desse volume. Além da cigarrinha-da-cana, praga que ataca os canaviais e obriga os produtores a renovarem o plantio em intervalos de três a cinco anos, também há um limitador natural.
Localizada aos pés da Serra do Mar e cercada pela Mata Atlântica, Morretes tem na vegetação nativa o seu principal ativo ambiental, econômico e cultural, mas que não deixa de ser um obstáculo para o avanço da produção nos alambiques do município. A estratégia de Poletto foi verticalizar a produção, controlando e executando todas as etapas da cadeia produtiva dentro do próprio negócio, desde o plantio da cana-de-açúcar até o envase.
O empresário aponta ainda uma outra dificuldade, a “insegurança jurídica”. “Nós temos uma sede imensa de crescer, de produzir, de ser eficiente, mas estamos três passos para trás neste momento. Estamos travados. Os órgãos que nos fiscalizam não são muito parceiros. O Brasil tem que fazer uma revisão nesse item”, reivindicou Poletto. “A gente não vê muita parceria do Estado com a gente, que tem que ter mais estabilidade.”
Vale do Ivaí
Em Jandaia do Sul, no Vale do Ivaí, a Estância Moretti produz artesanalmente seis variedades de aguardente, alcançando até 20 mil litros anuais. “A capacidade do nosso alambique pode chegar a mais de cem mil litros por ano, mas preferimos fazer, no máximo, 20 mil litros, assim conseguimos ter um controle maior da qualidade do produto”, ressaltou a mestre alambiqueira e gerente geral da empresa, Rosangela Villar Moretti. A última safra rendeu 17 mil litros.
O rótulo está no mercado desde 2018, mas o projeto começou quase duas décadas antes, em 2001. Moretti, que participa de feiras e outros eventos para aumentar a sua participação no mercado, percebe um aumento no consumo da cachaça de alambique artesanal, que vem ganhando mais espaço a cada ano, com maior valorização do produto. A maior parte dos clientes dos rótulos que saem da Estância Moretti está no Paraná e em São Paulo, mas há compradores em todo o território nacional. “Os movimentos de valorização do nosso destilado têm surtido efeito e começamos a sair do gueto para chegar ao palco, onde a cachaça deveria estar há muito tempo”, comentou a mestre alambiqueira.
Apesar do crescimento do mercado consumidor, a empresa viu o faturamento cair de 2024 para 2025 e como forma de compensar a retração, planeja o lançamento de novos produtos e a abertura de mercados estrangeiros. No momento, está em andamento o processo de documentação para iniciar as exportações à República Dominicana. “Estamos finalizando as documentações. Até o final do ano, devemos já conseguir enviar a nossa Cachaça 4 Madeiras para lá.”
Um entrave à conquista de mais espaço no mercado, apontou Moretti, são as “incertezas” nas tarifas e impostos. “Vejo que este problema não se restringe às bebidas, e sim, a todo o comércio. Por isso, temos que apresentar novidades para sempre despertar o interesse de nossos clientes. Até o final do ano, devemos apresentar novas embalagens e novos rótulos.”
A mestre alambiqueira reclama da alta carga tributária e da falta de apoio no sentido de dar um lugar de relevância a um produto tipicamente nacional. “Outros países valorizam suas bebidas nacionais, como a tequila, no México. O governo e a população têm orgulho. Acredito que quando a população descobrir a verdadeira qualidade do nosso tesouro, a cachaça terá seu lugar de destaque”, disse Moretti. “Vejo que a pouca valorização da cachaça como nosso produto de identidade nacional nos deixa bastante sem apoio.”


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.


