A agricultura vai voltar a ser um negócio lucrativo com o advento da agroenergia. A soja - que no Brasil tem amargado preços baixos devido às políticas macroeconômicas - deve voltar a ter um ciclo de altas. E esse panorama é desenhado devido à demanda mundial por óleo vegetal para a produção de biodiesel. Neste ano, foram produzidos cerca de 20 milhões de toneladas de óleo de soja, dos quais 98% foram destinados à nutrição humana e animal. O mundo produziu 5 milhões de toneladas de biocombustível. No entanto, a estimativa é que em 2010, esse número chegue a 33 milhões de toneladas.
''Até 2020 a demanda por óleo de soja vai aumentar em mais 120 milhões de toneladas. Precisaremos produzir outra safra do grão para atender todo o mercado de energia, considerando um aumento anual de 3% do mercado nutricional. Terá que ter um aumento na produção de 160%'', afirmou Décio Gazzoni, pesquisador da Embrapa Soja e secretário-executivo da Câmara de Oleaginosas e Biodiesel no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Segundo ele, em cinco anos a produção de soja terá que crescer 63% para atender toda a demanda mundial.
O impacto do biodiesel sobre os mercados do farelo e do óleo de soja foi discutido ontem, durante o último dia da Conferência Internacional de Agroenergia. No Brasil, o problema atual com o plantio da soja se deve a fatores macroeconômicos e climáticos. ''O que está ocorrendo é que os agricultores estão endividados, frustados depois de três anos de estiagem e políticas macroeconômicas severas. Eles não estão dispostos a correr riscos'', observou Gazzoni. Segundo ele, têm que ser feitos fortes investimentos em obras de infra-estrutura e logística, além de ajustes na economia como valorização do dólar, redução das taxas de juros e aumento da oferta de crédito.
''O preço internacional da soja está bom, o problema ocorre quando há a nacionalização desse preço'', disse o pesquisador. A redução da área plantada de soja no Brasil para o milho e para a cana-de-açúcar, de acordo com o pesquisador, está ocorrendo estritamente devido a fatores mercadológicos. ''Os Estados Unidos estão concedendo fortes incentivos ao milho para a produção de álcool. Isso está afetando os estoques mundiais e vai garantir preço, isso pode não ser sentido nesta safra, mas vai surtir efeito a partir das próximas colheitas'', explicou. Já o cultivo da cana-de-açúcar está focado, no Brasil, devido à produção de álcool.
Se neste ano foram fabricados 16,7 bilhões de litros de álcool, em 2012 a projeção é que sejam produzidos 25 bilhões de litros. ''Há um mercado aberto e comprador e o País enfrenta gargalhos, como a construção de usinas e problemas de logística'', afirmou o pesquisador. No entanto, a perda de área da soja não é vista como um problema devido à extensão do território brasileiro e às condições climáticas. ''O Brasil é o único País em que não há restrição de área, podem surgir novas fronteiras agrícolas'', explicou. ''As oportunidades (do mercado do biodiesel) batem na porta, mas o Brasil tem que cumprir suas metas para abocanhar o mercado'', salientou.

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