O governo deve receber os méritos pelo superávit inédito obtido em março, mas os problemas das contas públicas continuam graves e ainda por solucionar. Dois feitos contribuíram para o resultado: voltou-se a economizar dinheiro dos impostos para o pagamento de juros da dívida e, o mais importante, foi evitada a disparada do dólar.
Para entender por que houve superávit público, termo que nem consta do vocabulário econômico nacional, basta conhecer os métodos para o cálculo dos resultados do governo. Intuitivamente, sabe-se que é preciso comparar as despesas e as receitas de União, Estados, municípios e estatais. Se as primeiras superam as segundas, há déficit; do contrário, há superávit.
No entanto, é impossível acompanhar o desempenho de 27 governadores, centenas de empresas estatais e mais de 5.000 prefeitos, cada um fazendo a contabilidade à sua maneira - isso quando se fazem essas contas. Por isso, o BC faz o cálculo de uma maneira mais simples. Com as informações de que dispõe nos balanços dos bancos, observa a evolução das dívidas dos diversos governos e estatais.
Fica fácil: se a dívida total cresceu, obviamente o setor público gastou mais do que arrecadou. O oposto, muito mais raro, também é verdadeiro. A desvalorização do real, iniciada em janeiro, fez com que, calculado a partir desses critérios, o déficit público explodisse. Com o dólar saltando de R$ 1,21 para mais de R$ 2, a dívida pública - uma boa parte dela é em dólar - subiu, em apenas dois meses, de R$ 390 bilhões para R$ 500 bilhões.
Conforme o método do BC, aumento de dívida é déficit. Por isso, foi contabilizado um déficit gigantesco no primeiro bimestre do ano, R$ 66,5 bilhões, apesar dos aumentos de impostos e dos cortes de gastos promovidos.
Não se trata de uma distorção. Afinal, a dívida efetivamente cresceu e terá que ser paga por todos - por isso se diz dívida pública. Os números apurados, porém, são pouco úteis para definir a real situação das contas do governo. Um exemplo claro é o do superávit registrado em março. Ele foi contabilizado porque o dólar caiu e o valor da dívida pública caiu junto. Se a dívida caiu, houve superávit.
Um cálculo do próprio BC ajuda a avaliar a real importância do superávit de março e dos déficits de janeiro e fevereiro. Depois da desvalorização, o BC passou a calcular os resultados das contas públicas sem os efeitos da variação cambial. O resultado: houve déficit em março, de R$ 6,727 bilhões, maior que os de janeiro (R$ 3,999 bilhões) e fevereiro (R$ 4,794 bilhões).

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