Problema básico persiste, critica Ismael Mologni
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de janeiro de 1999
Da Redação 
A minidesvalorização cambial determinada ontem pelo governo beneficia o setor exportador, como o complexo soja e outras commodities agrícolas, mas ainda está longe de compensar as perdas via custo de produção (68,81% de INPC até novembro último, menos ajustes acumulados até agora e expurgada a inflação dos EUA, já que se trabalha com dólar americano). Porém, uma flexibilização mais ambiciosa - embora desejável - afetaria outros setores da economia, como os investidores, na hora de repatriar o dinheiro. E isto poderia acarretar fuga de investidores, já que esta é a preocupação do governo.
Esta observação está expressa na análise feita ontem pelo professor Ismael Mologni, da Universidade Estadual de Londrina, ao ser entrevistado por este jornal, sobre o ajuste do câmbio (flexibilização, segundo o governo) que sacudiu a economia durante todo o dia de ontem. Mologni ressalva que se uma empresa, cooperativa ou produtor individual trabalha com produtos importados, a vantagem do aumento da banda cambial pode ser neutralizada pois é afetada na proporção inversa. Para o professor Mologni, a medida do governo não ataca a causa do problema que são os déficits internos, as altas taxas de juros que penalizam o setor produtivo e as reformas esperadas.
Moratória O professor Mologni, que desde 97 vem defendendo ajuste cambial e criticando o modelo de estabilização econômica, vê fortes indícios de que o País caminha para uma moratória. De certa forma, ela já foi feita, disse, quando o governo recorreu ao FMI que concedeu o empréstimo. Só que esse recurso já foi absorvido pelos juros. No auge da crise Russa, Mologni previu agravamento da crise também no Brasil.
Segundo Mologni, a flexibilização é medida paliativa, ainda mais se o governo tiver de manter os juros altos para estancar a fuga de capital externo. Juros altos, seguram o investidor por algum tempo (se não houver credibilidade ele vai embora do mesmo jeito) mas debilitam a economia interna, como vem ocorrendo. Neste caso, a pressão social motivada pelo desemprego, etc, contribuirá para medidas mais decisivas, como a moratória, ainda que disfarçada de outro nome e roupagem.


