Privatização renasce indústria ferroviária
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domingo, 29 de outubro de 2000
Valmir Denardin Enviado a São Paulo 
Quatro anos após o início do processo de privatização das ferrovias brasileiras, a indústria de máquinas e equipamentos para o setor começa a voltar aos trilhos. Neste ano, as cerca de 70 empresas que fabricam trens, peças e sistemas, deverão atingir um faturamento de R$ 1,2 bilhão quase seis vezes superior à movimentação obtida em 1996, o último ano em que o sistema esteve sob o domínio estatal.
Mesmo assim, o setor ainda mantém 50% de seu parque industrial ocioso, segundo a Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer). Isso é reflexo, principalmente, de uma capacidade instalada superestimada, induzida durante o governo militar de Ernesto Geisel, no final dos anos 70. Essa capacidade de produção nunca chegou a ser plenamente ocupada.
A indústria de material ferroviário praticamente desapareceu, devido à falta de investimentos no setor, afirma Bernardo Figueiredo, diretor-executivo da Associação Nacional de Transportadores Ferroviários (ANTF). A associação reúne as 15 concessionárias que assumiram a malha ferroviária brasileira, por meio de concessão, a partir de 1996.
Hoje, o número de empregados está retornando ao patamar do período áureo da indústria ferroviária: 30 mil. Nos dois últimos anos sob administração estatal, quando o governo cortou os investimentos no sistema, esse número caiu para 3 mil. Esse volume de empregos só foi mantido porque as empresas que não faliram ou suspenderam as atividades direcionaram sua produção à exportação.
O cenário positivo foi apresentado na semana passada, em São Paulo, durante a terceira edição do seminário Negócios nos Trilhos. Com painéis de discussão e uma feira com lançamento de produtos, o evento reuniu concessionárias e indústrias. As operadoras também apontam para crescimento no volume de cargas transportadas. Neste ano, deverá ficar em torno de 15%, acompanhando a tendência dos últimos anos.
Ao assumirem um sistema ferroviário sucateado, as concessionárias tiveram que investir na compra de vagões e locomotivas novos, em reformas e substituição de peças e equipamentos. Como a indústria estava parada, tiveram que recorrer à importação. No primeiro ano de privatização, as concessionárias compraram no exterior US$ 4 milhões em peças. Dois anos depois, esse volume caiu para US$ 200 mil ao ano.
Mas muitas concessionárias ainda preferem a importação, sob o argumento principal de que a indústria brasileira não tem conseguido cumprir os prazos de entrega. A Abifer contesta. Temos o maior parque industrial da América Latina e nossas empresas são eficientes, argumenta Luís Cesário Amaro da Silveira, presidente da entidade. O principal problema, segundo ele, é que o setor precisa trabalhar com pedidos de médio prazo e o governo federal ainda não abriu programas de financiamento para as operadoras das ferrovias.
Além do setor de cargas, o transporte de passageiros ainda predominantemente estatal contribui de maneira significativa para o aquecimento da indústria. O que mais contribui para isso é a ampliação e instalação de sistemas de metrô em cidades como São Paulo, Brasília, Salvador (BA) e Fortaleza (CE); e a ampliação de linhas e reforma de veículos no sistema de trens metropolitanos em São Paulo.
Animadas, as indústrias aproveitaram a feira para expor novos equipamentos. A Amsted Maxion apresentou um novo vagão-tanque, resistente à corrosão e à pressão interna, para o transporte de ácido sulfúrico. A empresa está exportando 57 unidades do produto para o Chile. Outro produto da Amsted Maxion em destaque na feira, na verdade já está sendo utilizada pela concessionária ALL, que atua no Paraná. É o Rodotrilho, um vagão híbrido, capaz de circular em rodovias e trilhos. Sem a necessidade de transferência das cargas, a principal vantagem do sistema é a rapidez.
A Alstom, que domina o mercado de carros para metrô, estuda produzir no Brasil trens de longa distância de alta velocidade (até 350 quilômetros por hora) e que se inclinam em curvas, o que proporciona mais segurança. Seu principal produto na feira foi o carro de passageiros Surfliner bi-level, de dois andares, que está sendo vendido aos Estados Unidos.
O repórter Valmir Denardin viajou a São Paulo a convite da organização do evento


