BELO HORIZONTE - As principais divergências sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) só deverão ser resolvidas, se forem, nos próximos nove meses, durante a preparação do encontro de presidentes e primeiros-ministros em Santiago, marcada para março de 1998. Vice-ministros passaram o dia todo, ontem, rediscutindo o texto da declaração ministerial prevista para sexta-feira, mas não conseguiram reduzir a discordância em pontos cruciais, como o cronograma, a estrutura e a sede, ou sedes, das negociações comerciais que deverão ser lançadas pelos chefes de Estado e de governo. Este foi o balanço apresentado pelo embaixador José Arthur Denot Medeiros, representante brasileiro na Associação Latino-americana de Integração (Aladi) e membro da delegação no encontro de vice-ministros.
Até aquele momento, haviam sido revistos 14 dos 18 parágrafos do texto base preparado para a discussão. Os mais polêmicos, o quarto e o quinto, haviam sido postos de lado no final da manhã, para o debate poder avançar nas questões mais simples. Os diplomatas ainda tentariam completar a releitura ontem à noite, para retomar as passagens mais difíceis hoje cedo. É pouco provável que saia de Belo Horizonte uma decisão sobre como serão as negociações, disse outra importante fonte do Itamaraty.
Para que essa decisão ocorra, disse a mesma fonte, ‘‘os americanos precisariam aceitar o conceito de que as negociações têm de ser graduais e não se podem passar de maneira em que só seriam efetivamente explicitados os temas que interessam a eles.’’ Esses temas são negociações em torno de investimentos, compras governamentais, propriedade intelectual e serviços. As empresas norte-americanas têm óbvias vantagens nessas áreas, por causa de seu alto grau de internacionalização, observou a fonte. O norte-americanos têm insistido em tratar esses temas com a criação de obrigações que ultrapassem as fixadas pela Organização Mundial do Comércio (OMC), hipótese rejeitada pelo Mercosul.
A maior dificuldade encontrada pelos vice-ministros foi no exame do parágrafo quarto do texto base da declaração ministerial, que trata do cronograma, da forma, dos objetivos e do local ou locais das negociações e contém os principais pontos de diferença entre Mercosul e Estados Unidos. O embaixador Denot Medeiros insistiu em falar num ‘‘trabalho sem confrontação’’ e em ressaltar a disposição conciliadora das várias delegações. Mas esse esforço dificilmente produzirá, a curto prazo, a superação de divergências por ele mesmo classificadas como ‘‘cruciais’’.
Esse parágrafo menciona a decisão de lançar as negociações em Santiago. Fazer valer aquelas condições e esse compromisso é o problema nesta fase. Na falta de um acordo sobre questões fundamentais, os ministros poderão simplesmente recomendar a seus subordinados que continuem procurando o consenso até a próxima reunião ministerial, marcada para fevereiro em Costa Rica. Se as divergências persistirem, a decisão poderá ser transferida aos presidentes, disse Denot Medeiros.

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