Para muitas pessoas o biodiesel pode ser um assunto novo. As pesquisas em torno do óleo natural há pouco tempo têm ganhado destaque na mídia. No entanto, os primeiros estudos com o produto começaram a ser feitas há 25 anos e o Paraná foi pioneiro. As primeiras pesquisas são do início da década de 80, período em que houve uma disparada da cotação do petróleo, quando o preço do barril chegou a US$ 70. A intenção era buscar uma solução para baixar os custos de abastecimento da frota (na época formada por 40 veículos) da Cooperativa Agropecuária Maringá (Cocamar) e reduzir o custo de produção agrícola dos cooperados.
  Nessa época, a cooperativa iniciou estudos com a ‘‘soap stock’’, borra de refinado de óleo de soja e algodão e a borra de degomagem. Foi implantada um planta industrial para testes com capacidade de produção de 700 litros por dia. Para estudos iniciais, o biodiesel (éster de ácido graxo) foi utilizado para consumo de quatro caminhões, dois novos e dois usados. Foram feitos apenas ajustes de pressão nas bombas injetoras dos veículos. O teste durou um ano e meio e foram rodados 800 mil quilômetros. O resultado: um consumo 20% menor de biodiesel com relação ao diesel e nenhuma poluição ao meio ambiente.
  ‘‘O biodiesel tem fluidez mais leve que o diesel. Com biodiesel, o motor tem durabilidade quatro vezes maior do que com o uso de diesel’’, afirma o químico Richard Fontana, que estava a frente das pesquisas na Cocamar na época. Além disso, não havia necessidade de troca de lubrificante. O projeto já havia sido aprovado e seria financiado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (Finep) e pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo-Sul (BRDE). ‘‘O projeto já estava pronto, inclusive, com as estruturas metálicas. Também já haviam sido contratadas confecções das máquinas que seriam usadas na indústria’’, lembra Fontana.
  No entanto, o trabalho foi subitamente paralisado. ‘‘O então presidente João Figueiredo proibiu a continuidade do projeto para ‘o bem da segurança nacional’. Os pesquisadores também foram proibidos de tocar no assunto’’, diz. Além da ditadura, um outro fator ajudou a ‘sepultar’, pelo menos temporariamente, as pesquisas em torno do biodiesel: o recuo da cotação do petróleo.
  
Atraso - Depois desse período as pesquisas só foram retomadas na década de 90. ‘‘Isso foi um atraso enorme para o Brasil e atrasou o desenvolvimento do País. Tanto que os Estados Unidos e a Europa já desenvolveram a tecnologia do biodiesel’’, comenta o pesquisador. Agora, Fontana trabalha em parceria com um grupo de empresários em um projeto que vai instalar uma planta industrial de biodiesel em Londrina. Os estudos estão ocorrendo na sede da Auster Equipamentos. A estrutura, inicialmente, irá processar o óleo vegetal da soja mas terá capacidade para trabalhar com qualquer gordura vegetal ou animal. A produção seguirá as normas da Agência Nacional do Petróleo.
  A intenção inicial é trabalhar com o biodiesel de soja, por ser um produto mais barato e racional. No entanto, ele alerta que usar qualquer óleo vegetal em motores de veículos sem tratamentos específicos traz prejuízos. ‘‘Cerca de 7% do óleo vegetal é composto por produtos que ficam nos cilindros dos carros e não queimam. Essa fuligem gruda nas partes do motor e diminuem a sua capacidade volumétrica. Com isso, um motor que poderia durar de 400 mil a 600 mil quilômetros vai rodar apenas 200 mil quilômetros’’, explica.
  A planta de Londrina, que está sendo instalada, terá capacidade para produzir até 15 mil litros por dia. ‘‘Por enquanto, o biodiesel só pode ser usado em frota cativa, mas a sua utilização irá reduzir os custos de produção agropecuária’’, informa. Segundo ele, o litro do produto pronto pode ser vendido por R$ 1,40. Nos postos de combustíveis o litro do diesel está sendo comercializado, em média, por R$ 1,78. Além disso, a produção de biodiesel gera o glicerol (glicerina) e triglicerídeos como subprodutos. A glicerina é muito utilizada por indústrias cosméticas, mas as duas substâncias podem ser comercializadas.

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