Agência Folha
De São Paulo
Existe um grupo de empresas que, além de condições macroeconômicas favoráveis, depende de outra ajuda para vender: o sol. A ausência dele nesta primavera, especialmente nas regiões Centro e Sul do País, preocupa a indústria de cervejas, refrigerantes, sorvetes, protetores solares, biquínis e de confecções. Afinal, é de setembro a fevereiro que essas empresas obtêm boa parte da receita. A dependência das estações quentes é tanta que a consulta ao Instituto Nacional de Meteorologia, vinculado ao Ministério da Agricultura, é cada vez mais frequente.
Nos últimos 30 dias, duas indústrias de cervejas e refrigerantes, duas de sorvetes e uma grande loja de departamento solicitaram informações ao instituto para ter idéia do impacto do tempo sobre as vendas. ‘‘O prolongamento do inverno está tendo influência nos negócios de algumas empresas’’, diz Expedito Rebello, chefe da Divisão de Meteorologia do instituto.
As cervejarias vendem normalmente 60% da produção de outubro a março. ‘‘Estamos preocupados. Os produtos não estão girando nos pontos-de-venda’’, diz Paulo Leonhardt, diretor de operações da Kaiser. Em outubro, as vendas aumentam cerca de 10% sobre as de setembro. Neste ano, se o percentual for positivo, diz ele, não deve passar de 3%. As cervejarias comercializam no último trimestre do ano 35% da produção anual, segundo o Sindicerv, sindicato que reúne os fabricantes.
O atraso do verão está segurando os reajustes. ‘‘As fábricas não conseguem repassar os aumentos de custos para os preços. Se o dia não está ensolarado e quente, o brasileiro diminui a cerveja, mas chega a suspender o sorvete. ‘‘Estamos tendo de reprogramar a produção deste mês’’, diz Raymond Bodenmann, diretor da Yopa, da Nestlé. O sol tem tanto impacto nas vendas de sorvetes no Brasil, diz Bodenmann, que supera até o fator preço na hora do consumo. ‘‘Sem sol, não adianta nem fazer promoção, pois não há venda’’.
A Kibon considera que vai tirar o atraso na venda de sorvetes mais para a frente, pois espera um verão mais longo e mais quente do que o deste ano. A produção de 98, de 160 milhões de litros de sorvetes, deve ser no mínimo mantida neste ano, informa Denise Monteiro, gerente de relações públicas.
Os modelos e as cores mudam a cada ano, mas sem sol os biquínis e os maiôs não saem das gavetas das lojas. ‘‘Nos programamos para vender 40% a mais em outubro. Esperamos que dê uma virada no clima’’, diz Lygia Moreno, sócia-proprietária da Lygia & Nanny, confecção de biquínis e maiôs.
A primavera mais fria, segundo os lojistas de shoppings, tirou o entusiasmo do consumidor para comprar a coleção de verão. ‘‘A procura por esses produtos só vai crescer quando o sol for mais firme’’, diz Nabil Sahyoun, presidente da Alshop, associação que reúne os lojistas de shoppings. A falta de sol, diz Benny Rosset, diretor da Cia. Marítima, está emperrando as vendas de toda a linha praia. ‘‘Nós estamos acreditando no verão, mas sei de concorrentes que estão apavorados com a falta de sol e já até diminuem a produção’’.

mockup