O governo tem sido mais cuidadoso nas previsões relativas ao comportamento da economia em 1997. Deve ser para compensar o excesso de otimismo revelado no início de 96, quando superestimou o crescimento do PIB e a expansão das exportações e subestimou o déficit em conta corrente e o déficit público.
O ano termina com resultados brilhantes na redução das taxas de inflação. Mereceriam ser comemorados por todos os brasileiros, não fossem os custos desnecessários impostos a um número crescente de cidadãos produtivos privados no direito fundamental de trabalhar. Essas legiões de ‘‘excluídos’’ foram friamente excluídas da retórica oficial ao longo do ano e certamente não serão lembradas nos balanços que procedem o reveillon dos ‘‘inseridos’’.
Apesar de todas as evidências no final do ano passado, o governo se recusou a desarmar a armadilha que tolhia o crescimento econômico, impedindo a recuperação dos níveis de emprego. Seus economistas sustentaram previsões de crescimento de 6% do PIB, desqualificando as advertências que apontavam os exageros das políticas monetária e cambial. Estamos encerrando o ano com um medíocre crescimento de 3% do Produto, a metade do que foi previsto. Esse índice é claramente insuficiente para absorver 1 milhão e meio de recém-chegados ao mercado de trabalho anualmente e para trazer de volta uma parcela dos 10 milhões de brasileiros no ‘‘exército de reserva’’ a que se referia o falecido Karl.
Os bons economistas do governo sabem que se não for alterada a política cambial 1997 repetirá, na melhor da hipóteses, a medíocre performance de crescimento do ano presente. As exportações brasileiras vão encerrar 96 com um taxa de crescimento irrisória de 2,5% sobre o ano anterior, com as importações crescendo cerca de 6%. Haviam calculado um superávit de 2 bilhões de dólares na balança comercial e o resultado foi um déficit de 4 bilhões e meio. Imaginara-se um déficit em conta corrente de 15 bilhões de dólares e ele chega a 21 bilhões no final do ano. O problema não está propriamente no volume do déficit que o governo acredita que pode continuar financiando facilmente por um ou dois anos, mas na fraca performance das exportações.
Sem um robusto crescimento das exportações, a economia não volta a crescer e não se resolve a tragédia do desemprego. E ela não volta a crescer porque, toda vez que o nível de atividade começa a se expandir internamente, tem que ser contido porque as exportações não são suficientes para pagar as importações. Os fundamentalistas do Banco Central procuram minimizar o risco representado pelo déficit, afirmando que o volume de reservas nos garante contra eventuais emergências. As reservas, mais as generosas taxas de juros, ‘‘estimularão o ingresso de recursos para financiar o déficit por muito tempo’’. Dependendo da natureza da ‘‘emergência’’, é até possível. Só que ficam irresolvidos os problemas do crescimento e do emprego.
Há uma circunstância a mais, que ajuda a entender a armadilha: não havendo crescimento, a tendência é agravar-se o problema fiscal, porque a arrecadação não cresce. Com os juros nas alturas e sem um sólido programa de redução das despesas estatais, aumentam as dificuldades de financiamento do déficit das contas públicas. O governo não foi muito eficiente no controle das despesas este ano: havia calculado reduzir o déficit operacional para 2,5% do PIB em 96; chegamos ao final do ano com 4,5% do déficit operacional, em relação ao PIB. A cobra mordeu o rabo...
Não é segredo para ninguém que no âmbito do governo há vozes divergentes quanto a essa política que nos condena ao baixo crescimento e à eternização de altos níveis de desemprego. Suas previsões para 1997 têm sido mais cuidadosas, porque sabem que as decisões estratégicas de política econômica dependem cada vez mais dos humores do mercado financeiro internacional. Sabem também que a corrente mais forte, que manda no governo a partir do Banco Central, está atrelada a esses humores. Ela é formada pelos sacerdotes da ‘‘teologia da especulação’’ que defendem uma espécie de opção preferencial pelo sistema financeiro, em detrimento do sistema produtivo.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado federal

mockup