Mercado em baixaOperador da Bovespa indica com as mãos o mergulho das cotações, ontem: mais um dia de tensão As bolsas de valores despencaram ontem. A continuidade da crise do Sudeste Asiático e a forte pressão nos mercados de câmbio e juros, onde as cotações dispararam, acabaram derrubando mais uma vez os mercados acionários domésticos, que recuaram pela terceira vez consecutiva.
Na bolsa paulista, a queda foi de 6,38% e na carioca, de 10,24%. Com esse tombo, esses mercados passaram a registrar desvalorização de 1,71% e 6,48% no mês, pela ordem. No ano, a alta encolheu bastante nas últimas duas semanas: a bolsa paulista, que chegou a acumular valorização de 93,43% de janeiro a 8 de julho, teve seu avanço reduzido a 25,46% neste ano. No Rio, a alta no ano é de 23,09%. Desde o início da crise em Hong Kong, em 23 de outubro, o mercado de ações em São Paulo amarga uma queda de 31,83%, e o do Rio, de 32,21%.
A queda de ontem forçou as duas bolsas brasileiras a acionar o circuit breaker, mecanismo que interrrompe os negócios quando os índices atingem patamares baixos demais. No mercado paulista isso ocorre quando a queda atinge 10%; no carioca, quando o recuo supera 4 mil pontos.
O diretor de gestão de renda variável da Lloyds Asset Management (LAM), Paulo de Sá Pereira, entende que está em curso uma crise dos países emergentes. ‘‘A liquidez internacional está migrando para os países de Primeiro Mundo’’, afirma. Os investidores passam a dar preferência para aplicações mais seguras, como os títulos de longo prazo do tesouro norte-americano.
Nesse quadro, os ativos dos emergentes são reavaliados. Segundo ele, como o risco desses países está mais elevado, há uma correção para baixo do valor dos ativos. ‘‘O retorno precisa ser mais elevado para o atual nível de risco’’, explica. ‘‘Para que isso ocorra, há uma desvalorização do preço dos ativos.’’
A Coréia do Sul parece ser a bola da vez. Pereira lembra que o país asiático é altamente endividado e conta com poucas reservas internacionais, além de ter um sistema financeiro debilitado. Hoje a bolsa coreana recuou 6,9%. Os mercados de ações de outros países da região também foram duramente afetados: a bolsa japonesa caiu 4,22%, a maior queda em dois anos, e a de Hong Kong, 2,9%.
Pereira diz que a economia japonesa, que passa por uma fase de estagnação há alguns anos, deve ser afetada pela crise dos outros países asiáticos. ‘‘Isso deve ocorrer pelas fortes ligações comerciais entre esses países’’, afirma. O diretor da LAM acredita que a economia dos outros países de Primeiro Mundo não deve ser afetada. No caso dos EUA, por exemplo, Pereira diz que a crise está circunscrita à bolsa de valores. ‘‘As ações estão sobrevalorizadas, mas a economia norte-americana está bastante saudável.’’
Entre os fatores internos que explicam a queda das bolsas, Pereira diz que o mercado ficou um pouco frustrado com o fato de o governo ainda não ter anunciado medidas de aperto fiscal. O ajuste nas contas públicas deve ser divulgado na segunda-feira e é aguardado com expectativa pelos investidores.
Nova York A Bolsa de Valores de Nova York perdeu ontem 1,3%, quase dois terços dos ganhos da semana, ao sofrer o impacto negativo da queda nos mercados asiático e europeu, rumores de lucros menores das grandes corporações americanas e receio de superaquecimento econômico com a divulgação do indicador de desemprego nos Estados Unidos, o menor desde 1973.
Cambaleante com as informações alarmistas que chegavam de Seul, Tóquio, Hong Kong, Paris e Londres, Wall Street levou um susto quando o Departamento do Trabalho anunciou, em Washington, o surpreendente índice de desemprego nacional de 4,7% da população economicamente ativa, o menor em 23 anos. Para a Casa Branca, os números mostram que a economia americana ‘‘é a mais forte em uma geração’’, como disse o presidente Bill Clinton. Para os estrategistas dos bancos de investimento americanos, o indicador comprova a tese de superaquecimento econômico e uma agora ‘‘muito provável’’ decisão de o Fed, o banco cental americano, realizar um aperto monetário.

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