Presidente da Global diz que 'mercado no Brasil é mais livre'
Yuji Tsuda elogia a força de trabalho brasileira
Kraw PenasSurpresa positivaTsuda, presidente da Global Telecom: A economia brasileira se mostrou mais estável do que imaginávamosMiriam Karam
Especial para a FolhaO atual presidente da Global Telecom, o japonês Yuji Tsuda, 43 anos, tem fé no Brasil. Acredita que a livre concorrência no mercado é mais racional por aqui, em comparação com seu país de origem, onde o controle é muito mais severo e os obstáculos são muitos.
Morando em Curitiba há apenas dois meses, o executivo diz ter ficado muito bem impressionado com os trabalhadores brasileiros. Ele conta que haviam lhe passado uma imagem preconceituosa sobre nossos profissionais e sobre o caráter do povo brasileiro. Mas, em pouco tempo, afirma já ter podido perceber que se tratava de uma impressão totalmente errada. Tsuda até descobriu semelhanças entre o caráter trabalhador do povo brasileiro e do japonês, o que lhe deu muita satisfação.
Sobre os negócios, também se diz satisfeito com os avanços já obtidos, embora reconheça ser muito dura a concorrência com o consórcio formado entre a TIM, empresa de capital italiano, com a Telepar, no Paraná, e com a Telesc em Santa Catarina. De qualquer forma, ele afirma que a Global já superou sua meta inicial com relação ao número de assinantes e pretende alcançar, até o final do ano, nada menos que 100 mil clientes nos dois Estados em que atua.
A meta deixa de parecer ambiciosa quando se conhece os planos da empresa, que já atua no Paraguai e está de olho em todo o mercado do Mercosul. Embora esteja há tão pouco tempo na presidência da empresa, de fato Tsuda trabalha no projeto de disputar a Banda B de telefonia celular no Brasil desde 1996. Neste período, veio ao País mais de 20 vezes. Estadas em que aproveitou para assistir a alguns jogos de futebol, esporte que costumava praticar no Japão.
Folha - Por que a Global Telecom escolheu o Paraná e Santa Catarina para operar?
Yuji Tsuda - Há várias razões para termos selecionado essas duas regiões. Uma delas é que aqui está um de nossos mais importantes acionistas, a Inepar. Eles conhecem muito bem os negócios e nós contamos com uma boa cooperação deles. Também porque estamos bem no centro da comunidade do Mercosul, entre o Rio e São Paulo e Buenos Aires, na Argentina. E esperamos bons resultados aqui, porque se trata de uma região próspera, onde podemos crescer muito, muito rápido. Trata-se de um mercado muito bom para os operadores. Outra razão é o próprio povo brasileiro, especialmente do Paraná e Santa Catarina. É um povo muito trabalhador e honesto. Além disso, aqui no Paraná, especialmente em Londrina, há muitos descendentes de japoneses, o que nos aproxima mais (os dois maiores acionistas da Global são as empresas japonesas DDI e a Nissho Iwai). Acho que tivemos muita sorte em conseguir a concessão da Banda B nestes dois Estados.
Folha - Como o senhor avalia os progressos alcançados?
Tsuda - Acho que está melhorando a cada dia. É claro que é difícil. Afinal, ninguém sabia o que a Global Telecom, qual a qualidade de seus serviços... E as pessoas são muito cuidadosas a respeito, quando uma nova empresa chega ao mercado. Por isso estamos fazendo muita publicidade, para tornar nossa imagem mais conhecida.
Folha - Quando da entrada em operação, a Global anunciou que pretendia alcançar 25 mil clientes num curto espaço de tempo. Seis meses depois vocês estão perto da meta?
Tsuda - Já ultrapassamos esse número. Estamos com 40 mil assinantes nos dois Estados.
Folha - O maior percentual de assinantes da Global está no Paraná?
Tsuda - Sim. Cerca de 70% de nossas vendas estão no Paraná. É que começamos a trabalhar aqui antes, e agora estamos nos esforçando para ampliar nossa ação em Santa Catarina.
Folha - O atraso em Santa Catarina se deve a dificuldades em entrar num mercado amplamente dominado pela Telesc, que já dispunha de uma superestrutura?
Tsuda - Não, é apenas uma questão de agenda. Decidimos que começaríamos pelo Paraná, onde entramos em operação em dezembro do ano passado. E começamos a operar em Santa Catarina em fevereiro deste ano.
Folha - E qual é a meta agora?
Tsuda - Pretendemos chegar a 100 mil assinantes até o final deste ano.
Folha - Há boatos de que seu sócio paranaense, a Inepar, pretende sair do consórcio Telemar e recuar também no investimento em telefonia celular no Amazonas. O senhor acha que isso pode acontecer aqui também?
Tsuda - De forma nenhuma. O presidente da Inepar, Atilano de Oms, nos afirmou, de forma muito clara, que não tem essa intenção. Ele me disse isso há poucos dias. E possivelmente a empresa vai até ampliar sua participação.
Folha - Qual foi o investimento feito até agora pela Global? E qual é a previsão?
Tsuda - Já investimos mais de US$ 100 milhões, apenas na construção da infra-estrutura de operação. E nos próximos quatro anos devemos investir aproximadamente outros US$ 250 milhões.
Folha - Em quanto tempo vocês esperam o retorno do investimento?
Tsuda - Entre cinco e dez anos, calculamos.
Folha - Quantos postos de trabalho a Global criou?
Tsuda - Temos cerca de 300 funcionários e outros 500 empregados temporários.
Folha - A rápida instalação da empresa no Brasil se deve à experiência dos sócios japoneses na privatização da telefonia no Japão?
Tsuda - Não apenas na experiência japonesa, mas também na brasileira.
Folha - É possível traçar um paralelo entre a privatização lá e aqui?
Tsuda - São muitas as diferenças. Um exemplo: o controle, severo, que o Ministério das Telecomunicações do Japão exerce sobre os negócios. Eles controlam demais as operadoras de telefonia. Aqui, a Anatel não interfere tanto. No Japão, tudo tem de ser aprovado pelo ministério. Um exemplo: quando vamos decidir quanto vamos pagar de dividendos, no final de um ano, temos de consultar o Ministério das Telecomunicações.
Folha - É possível comparar e dizer qual é o melhor?
Tsuda - Na verdade, há um mau hábito no Japão. A livre competição é muito difícil lá. Aqui, o controle é menor, a concorrência é mais livre. Acho que é melhor o modo brasileiro de operar. Me sinto mais confortável fazendo negócios no Brasil, em comparação com o Japão. Lá, há muitos obstáculos. Só, por favor, não mande esta entrevista para o Japão (risos). Aqui, acho que é mais racional, por isso me sinto muito confortável.
Folha - A Global sofreu muito com a desvalorização cambial no início deste ano? E o senhor continua achando que o Brasil é um bom lugar para fazer investimentos?
Tsuda - Nós tivemos alguns problemas com compra dos aparelhos e nossos custos em real cresceram muito. Mas acho que a taxa cambial é muito mais estável do que poderíamos pensar há pouco tempo. A taxa poderia continuar crescendo e era o que temiam as pessoas nos Estados Unidos e no Japão. Mas ficou estável. E o Brasil continua sendo um grande país, bastante importante para o resto do mundo. Gostaria de acrescentar que me venderam uma imagem preconceituosa do povo brasileiro, quando estava vindo para cá. Aliás, de todos sul-americanos. Diziam que eram preguiçosos, nunca pontuais e que não cumpriam suas promessas. E quando comecei a trabalhar em São Paulo e em Curitiba, descobri que a informação estava errada. Na verdade, acho que é um povo muito trabalhador. Minha impressão mudou completamente. O povo curitibano, e brasileiro, trabalha muito, comparando com a Ásia. Antes de entrar na DDI, trabalhei para a Toyota. Eu era encarregado das exportações para o sudeste da Ásia - Cingapura, Malásia, Indonésia, Tailândia, Filipinas, muitos países. E vi que lá os trabalhadores são muito preguiçosos. Se o chefe sai da sala, todos param de trabalhar. Até mesmo nas fábricas. Aqui é muito diferente. São trabalhadores voluntários, e bons, para seu próprio benefício. Muitas vezes escuto funcionários dizendo que gostariam de andar com seus próprios pés. Crescer como indivíduos. Fico muito satisfeito ao ouvir isso. São muito parecidos com os japoneses.
Folha - E com relação à economia brasileira?
Tsuda - Também sou muito otimista quanto a isso. Não sinto nenhuma dificuldade em trabalhar aqui. É claro que a competição com a TIM é muito dura, mas temos de competir. E a estratégia da Global Telecom é contribuir para a sociedade. Esta é a nossa primeira preocupação. Na medida em que contribuimos, crescemos como operadores. Temos de oferecer um bom serviço.
Folha - E como se dá a contribuição para a sociedade?
Tsuda - Há muitas formas de fazer isso. Um exemplo é a nossa preocupação com o meio ambiente. Os usuários de telefones celulares podem entregar suas baterias usadas em qualquer loja da Global Telecom. A empresa as envia aos fabricantes, que dará a elas a destinação correta, evitando riscos ao meio ambiente. E temos planos para desenvolver em todas as cidades em que atuamos.
Folha - Como será isso?
Tsuda - Ainda é um segredo que está na minha cabeça.
Folha - O senhor deu uma palestra em Foz do Iguaçu, na última semana, porque muita gente estava interessada em saber como a empresa conseguiu se instalar tão rapidamente.
Tsuda - Nós conseguimos a licença de operação no dia 8 de abril do ano passado. Começamos a preparação em julho e conseguimos entrar em operação no dia 10 de dezembro, portanto, cinco meses depois. E começamos do nada. Isto é digno de nota. No Japão, levaríamos pelo menos um ano e meio. Os acionistas japoneses não acreditavam que conseguiríamos. Mas nós o fizemos.
Folha - E como conseguiram?
Tsuda - Eu mesmo fico surpreso. As pessoas da Global Telecom e fornecedores trabalharam muito, e de forma coesa. Por exemplo, no caso das estações-base, normalmente no Japão é necessário um ano. Mas, no nosso caso, fizemos em dois ou três meses. Foi um grande desafio.
Folha - E foi mais difícil porque seus concorrentes, Telepar e Telesc, já tinham toda a infra-estrutura montada?
Tsuda - É, elas dispõem de grandes redes já montadas. E nós, como segundo operadores, não conseguiríamos começar os negócios com uma rede do mesmo tamanho. Leva muito tempo. Mas asseguramos o investimento dos acionistas, o que é muito difícil para o segundo operador - mesmo começando com cerca de 60% da rede. E agora estamos expandindo. Em cerca de três anos estaremos com o mesmo tamanho dos concorrentes.
Folha - A Global Telecom tem planos de entrar em outros países do Mercosul?
Tsuda - Nós já temos um projeto em operação no Paraguai. Mas o sistema é diferente do nosso. Mas se você é assinante da Global no Brasil, pode ir ao Paraguai e usar seu próprio telefone.
Folha - E como funciona o número mundial, ou roaming global, da Global?
Tsuda - Em parceria com a Iridium Brasil, lançamos o número mundial, que é um serviço muito interessante para os clientes. É um número de telefone que pode ser alcançado em qualquer lugar do mundo. É muito útil para homens de negócios que viajam seguidamente para o exterior. Quem já tem um celular convencional pode continuar com o mesmo número, apenas trocando o aparelho pelo modelo Star Tac Iridium.
Folha - É um serviço muito caro?
Tsuda - Não. Fica ainda mais barato do que fazer as ligações de um hotel.
Folha - Passando para um lado mais pessoal: o senhor pretende ficar por muito tempo no Brasil?
Tsuda - Sim, por muito tempo. Espero que por mais de cinco anos.
Folha - Morando no Brasil há apenas dois meses, o que acha da vida por aqui?
Tsuda - Gosto muito de morar aqui. Especialmente porque joguei futebol durante dez anos no meu tempo de escola.
Folha - Em que posição o senhor jogava?
Tsuda - Era ponta-esquerda.
Folha - E era um bom jogador, como é homem de negócios?
Tsuda - Eu espero que sim (risos). Nas minhas visitas recentes ao Brasil (o escritório ficava em São Paulo), muitas vezes fui a estádios assistir jogos. É uma pena que não tenha mais tempo para ir. Só posso assistir às vezes pela TV.
Folha - O senhor tem preferência por algum time?
Tsuda - Pelo Palmeiras. Mas agora vou mudar para torcer por um de Curitiba.





