A greve dos caminhoneiros autônomos entra no quarto dia com reflexos em diversos setores. Há risco de falta de combustíveis, alguns postos já fecharam as portas, gás de cozinha e alimentos. O Ceasa de Londrina registrou na quarta-feira uma queda de 80% no movimento, em função dos bloqueios das rodovias. As revendas de gás de cozinha estão com os estoques no limite e as transportadoras estão com os caminhões parados nos pátios ou na estrada.

Os preços dos produtos perecíveis, principalmente hortifruti, devem subir rapidamente. "Esse aumento é natural por causa da lei da oferta e demanda. É uma questão de livre mercado", afirmou José Guilherme Silva Vieira, professor de economia monetária da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Os comerciantes do Ceasa Paraná já sentiram o peso da paralisação. Em Londrina, o movimento caiu em torno de 80% nesta quarta-feira. No começo da tarde, os caminhoneiros fecharam a entrada da unidade, na BR-369, na zona Leste. Alguns produtos como verduras folhosas e frutas já estão em falta.

As frutas de época como ponkan, que vem de Minas Gerais, e mexerica, do Rio Grande do Sul, são as mais afetadas. "Não está chegando nada de lugar nenhum", afirmou Marcos Augusto Pereira, gerente da Ceasa de Londrina. A unidade abastece municípios do Norte Pioneiro, região de Ourinhos e Assis, em São Paulo, e até cidades do Mato Grosso do Sul.

Os agricultores de Londrina também estão tendo dificuldades para escoar a produção de hortifruti. Os produtos em estoque já sofrem reajuste, de acordo com o gerente. A saca de 50kg da batata-inglesa que na sexta-feira (18) era comercializada a R$ 90 subiu para R$ 280 nesta quarta-feira.

A situação é parecida em outras unidades do Ceasa no Estado. Em Curitiba, a queda foi de 50% na movimentação, em Cascavel e Foz do Iguaçu a redução foi de 70% e Maringá de 55%. Os preços também já subiram. Na Capital, o tomate longa vida subiu de R$ 55 para R$ 70 a caixa de 20kg. A batata comum saiu dos R$ 80 a caixa de 50kg para R$ 120.

O abastecimento de gás de cozinha também está ameaçado. De acordo com o Sinegas (Sindicato das Empresas de Atacado e Varejo de Gás Liquefeito de petróleo), os estoques das revendas estão comprometidos.

A previsão é de que em Londrina, Cascavel e Foz de Iguaçu falte o produto a partir desta quinta-feira. "As revendas não têm capacidade alta de armazenamento. Em Londrina, as bases das distribuidoras estão paradas deste segunda. A base mais próxima com botijão cheio fica em Ponta Grossa", afirmou Sandra Ruiz, presidente do Sinegas.

Segundo ela, mesmo que a greve termine nesta quinta-feira, o setor levará pelo menos quatro dias para recompor os estoques. Ela enfatizou que o sindicato é favorável ao movimentos dos caminhoneiros. "Em 2017, o gás de cozinha aumentou em torno de 70%, mas não conseguimos repassar todo esse custo ao consumidor", disse a presidente.

Dono de quatro revendas da Supergasbras, Martin Saffaro afirmou que só tem estoque para mais um dia, principalmente pela demanda que cresceu com a ameaça de desabastecimento. "A procura aumentou muito depois do almoço (desta quarta-feira) com as notícias de desabastecimento. As pessoas estão se prevenindo para não ficar sem", contou. O revendedor disse ainda que já falta o produto em Arapongas e Apucarana. "Os caminhões não conseguem passar pelos bloqueios", afirmou. A situação complicou depois do fechamento do pool de combustível de Londrina na manhã desta quarta-feira (23).

TRANSPORTE

O vice-presidente do Grupo Garcia Brasil Sul, Estefano Boiko Junior informou que há estoque de diesel para três dias nas garagens nas filiais da empresa. A empresa de ônibus começa a se prepara para a falta do combustível.

Mesmo assim, segundo Boiko Junior, a diretoria da empresa apoia a greve devido ao aumento abusivo do óleo diesel, que desde julho de 2017 teve um aumento de 50% para as empresas do grupo Garcia Brasil Sul.

A empresa nega a informação que circula que aderirá a greve. O atendimento ao transporte de passageiros e de cargas continuará sendo realizado dentro das possibilidades.

As transportadoras estão com as frotas paradas em vários pontos do país ou nos pátios das empresas. De acordo com o vice-presidente do Setcepar (Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviário de Cargas no Estado do Paraná), Fernando Nunes, com o bloqueio das rodovias pelos caminhoneiros autônomos, uma empresa de médio porte perde em torno de R$ 60 a 80 mil/dia de receita.

O Setcepar é contra a política de reajuste de preços diários da Petrobras e a incidência da carga tributária sobre o combustível.

"Ela [carga tributária] representa grande parte do valor do diesel e pensamos, que por ser um combustível essencial ao transporte, não deveria ter impostos tão elevados. Isso pesa e reflete no custo Brasil", afirmou Nunes.

O sindicato não vê uma solução no curto prazo. "Os autônomos têm razão e compreendemos o lado deles. São um elo importante da cadeia de transporte e sofrem com o aumento dos custos", disse o presidente da entidade. Para ele, a greve mostra a dependência do Brasil do sistema rodoviário.

Em Londrina, as transportadoras estão segurando os caminhões nos pátios para garantir a segurança da carga e dos caminhoneiros.

A Rodoagro Transporte e Logística acompanha diariamente os pontos de bloqueio. A empresa, que transporta produtos químicos, está com um caminhão parado na estrada. A coordenadora de atendimento da transportadora, Viviane Bettini, afirmou está tratando diretamente com os clientes para minimizar a situação.

A Trans Noronha, empresa de logística, suspendeu o carregamento e recebimento de mercadorias. Os caminhões estão parados onde carregaram. Segundo o gerente operacional Eduardo Augusto de Castro, a empresa também tem mercadorias de clientes paradas nas estradas e não deve fazer nenhum carregamento enquanto durar a greve por uma questão de segurança.

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