Obrigados a conviver com taxas de juros muito elevadas, adotadas como parte do pacote de defesa do real em meio à crise dos mercados internacionais do final do ano passado, os consumidores brasileiros terão que esperar ainda um pouco até terem benefícios como resultado do crash dos países asiáticos. Até agora, os preços dos produtos importados dos tigres asiáticos não foram reduzidos como consequência da acentuada desvalorização das suas moedas.
Em alguns casos, existe a expectativa de que haja um corte nos preços a partir de março, depois que os importadores brasileiros negociarem as condições de pagamento das novas encomendas. No setor automobilístico, são mais nebulosas as chances de redução dos preços.
‘‘É muito cedo para sabermos qual será o impacto das desvalorizações sobre os preços dos carros importados dos países asiáticos. Talvez o efeito seja pequeno porque é comum que as negociações sejam feitas em dólar’’, informa Carlos Roberto de Vilhena Moraes, diretor-executivo da Abeiva, a associação dos importadores de veículos. Em 97, as empresas ligadas à Abeiva importaram entre 55 mil e 56 mil veículos, segundo o balanço inicial da entidade.
Além de serem negociadas em dólar, as encomendas de veículos no exterior são feitas com muita antecedência, às vezes de seis meses a um ano. Vilhena explica que esse prazo longo é necessário porque os veículos precisam ser fabricados para atender às especificidades de cada mercado. No caso brasileiro, por exemplo, os veículos devem ter suspensão reforçada para enfrentar o péssimo estado das ruas e estradas. ‘‘Há espaço para renegociar os preços pouco antes das datas de embarque. Mas isso depende muito das relações entre importador e fabricante’’, diz Vilhena.
A Asia Motors do Brasil está negociando com o grupo coreano ao qual pertence a possibilidade de repasse para o consumidor do impacto da desvalorização da moeda sobre o preço, informa Miguel Keremian, diretor-executivo. ‘‘É uma decisão interna do grupo decidir sobre a política de preços’’, afirma. Nas últimas semanas, a Asia cortou preços de vários modelos de veículos, mas isso foi resultado ‘‘pura e simplesmente de uma promoção para movimentar o mercado. Não houve alteração no preço dos carros na sua origem’’.
Em outros mercados, já está havendo redução de preços. Na semana passada, a Daewoo, outra montadora coreana, anunciou um corte de quase 20% nos preços dos automóveis vendidos na Índia. Mais do que automóveis e outros veículos, como peruas e vans, o Brasil tem importado volumes muito expressivos de produtos eletroeletrônicos e de peças e componentes para esses produtos. Um dos principais fornecedores é a Coréia, da onde vieram cerca de mais de US$ 250 milhões desses aparelhos e de peças em 97.
Dificilmente, porém, a desvalorização do won (a moeda coreana) terá grandes efeitos imediatos sobre os preços nas lojas de televisões e aparelhos de vídeo produzidos na Coréia ou fabricados no Brasil com peças e componentes coreanos. Nos últimos meses de 97, vários fabricantes desses produtos baixaram seus preços no mercado brasileiro, como uma forma de tentar atrair o consumidor diante da queda das vendas. Em vários casos, isso representou achatamento das margens de lucros.
O impacto em termos de custos da desvalorização das moedas asiáticas poderia, nesse caso, ser absorvido pelos fabricantes para atenuar a perda de lucratividade e não ser integralmente repassado para o consumidor final. Em outros setores, as negociações também são feitas com meses de antecedência.
O grupo de supermercados Pão de Açúcar, por exemplo, deverá enviar em março representantes do departamento comercial à Ásia para negociar as compras de alguns produtos, inclusive enfeites de Natal. O Mappin também vai iniciar nas próximas semanas as negociações para importações asiáticas.

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