Preconceito pesa na hora da contratação
Não é possível medir o preconceito, mas alguns números levam à conclusão de que ele tem um peso preocupante nas dificuldades do negro quando ele consegue um emprego. Entre os ocupados, a barreira salarial é ainda maior do que a diferença de escolaridade. A renda média dos brancos empregados é duas vezes maior que a dos negros. Já em relação à escolaridade, brancos ocupados têm 1,2 vez mais anos de estudos - são em média 9,8 anos de estudos para os trabalhadores brancos, o que indica que concluíram o ensino fundamental, e 7,7 para negros e pardos.
''Muitas vezes, apesar da mesma escolaridade, o afrodescendente tem menos chance de ocupar cargos de chefia, com salários maiores'', diz o pesquisador Alexandre Pinto, consultor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas. ''O negro não pode se dar ao luxo de ficar desempregado. Então, ele vai mais ao mercado em busca de trabalho'', afirma Pinto.
A estudante e recepcionista Sabrina Cristina Silva, de 19 anos, é um exemplo de quem não tem tempo a perder. Aos 16 anos, concluiu que estava na hora de dividir com os pais as despesas da casa. Distribuiu currículo em dezenas de empresas, sem sucesso. ''Algumas pessoas olham o currículo e deixam na gaveta, outros nem olham e jogam logo fora'', diz Sabrina. Quando completou 18 anos e terminou o ensino médio, inscreveu-se no Centro de Oportunidades Professor Paulo Freire, no centro do Rio, que funciona em parceria do governo federal e estadual.
Em abril, Sabrina conseguiu emprego temporário de um mês como recepcionista de uma agência de publicidade. Agradou, foi ficando e está lá há um ano. Ganha R$ 320 mensais, mais vale-transporte e vale-refeição, e está fazendo um curso técnico de administração pago pela empresa. ''É mais difícil para o negro entrar numa grande empresa, eles sempre tentam te diminuir'', diz Sabrina, que sonha cursar faculdade de Direito.
Rosana Heringer considera ainda ''muito pontuais'' as medidas que permitem o ingresso de negros na universidade, mas acredita que a pressão vai crescer. ''Se o acesso ao curso superior se ampliar, tende a haver um impacto no mercado de trabalho em dez ou vinte anos'', diz a cientista social. (L.N.L./AE)





