Curitiba - As dificuldades encontradas pelos produtores de trigo para comercializar a safra do ano passado tendem a se repetir este ano. Os prejuízos com a cultura podem se prolongar para a safra atual que começa a ser colhida no final de agosto. Há quase 10 meses o produtor não consegue vender o trigo pelo preço mínimo, fixado em R$ 24,00 a saca. Atualmente o produtor vende o trigo entre R$ 20,00 a R$ 21,00 a saca.
Por conta desse desânimo, a área plantada no Paraná na atual safra caiu 11%. Conforme levantamento do Departamento Estadual de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento foram plantados 1,21 milhão de hectares, contra 1,35 milhão de hectares plantados no ano passado. A produção também deve cair. Se o clima ajudar, deverão ser colhidos este ano 2,75 milhões de toneladas, uma redução de 300 mil toneladas em relação à produção do ano passado, quando foram colhidas 3,05 milhões de toneladas.
Segundo acompanhamento do Deral, cerca de 95% da cultura já está plantada. O desenvolvimento da cultura é favorável, com exceção no Norte Pioneiro, onde as chuvas ocorridas até agora foram escassas. Mas ainda não se fala em comprometimento da cultura, porque pode haver recuperação com novas chuvas, disse o técnico Otmar Hubner.
Os preços do trigo entraram em queda desde setembro do ano passado, quando começou a colheita e venda da safra anterior. Segundo Hubner, os preços baixos são mantidos pelo dólar barato que favorece as importações. Os moinhos também não aumentam as compras porque o consumo de derivados de trigo (pães, massas e biscoitos) no mercado interno se mantém em baixa. Os moinhos não mantêm estoques e só compram o que vão processar. Com as vendas em ritmo lento, as cooperativas paranaenses ainda mantêm estocadas cerca de 150 mil toneladas de trigo da safra anterior.
''A situação do produtor de trigo é dífícil'', concordou o analista econômico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), Robson Mafioletti. Para reduzir os prejuízos nessa fase de plantio e ainda com dívidas da safra de verão, o agricultor está cortando o uso de tecnologia. ''O agricultor comprou menos fertilizantes e provavelmente vai reduzir as aplicações de fungicidas'', avisou. O resultado pode influenciar na queda dos níveis de produtividade, se houver ataque de fungos nas plantas, disse o técnico.
Segundo Mafioletti, os preços de venda do trigo na safra passada só não foram piores porque o governo ainda deu ''um pouco de apoio''. No Paraná, cerca de 900 mil toneladas foram vendidas pelo preço mínimo em função da intervenção oficial, através de instrumentos como Prêmio de Escoamento da Produção (PEP), Aquisições do Governo Federal (AGF) e contratos de opção.
O trigo importado está sendo internalizado por preço semelhante ao da produção nacional, mas os moinhos preferem essa alternativa por causa do prazo de pagamento que é bem maior. Na importação, os moinhos ganham até 360 dias (um ano) para iniciar os pagamentos.
Para Hubner, do Deral, no curto prazo é inviável a produção nacional de trigo superar a produção argentina. No Brasil os custos de produção, em torno de R$ 27,00 a saca, são elevados em função da necessidade de aplicar fertilizantes, fungicidas e inseticidas nas plantas. Só esses tratos culturais representam quase 30% em relação aos custos de produção do trigo argentino.
''Lá os solos são fertéis e o clima é seco. Com isso os produtores não precisam gastar para adubar o solo e o clima não favorece o aparecimento de fungos como aqui'', comparou.

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