Paul Solman
Do Financial Times
Menos de um ano atrás, a idéia de que os preços do ouro teriam uma dramática recuperação parecia improvável. A decisão do Banco da Inglaterra, em 99, de reduzir suas posições de reserva em ouro foi vista como um novo sinal de que o tradicional papel do ouro – como o último investimento seguro – já havia desaparecido.
No entanto, nos últimos dias, os preços do metal subiram, com os operadores na corrida por cobrir suas posições. O ouro teve alta de US$ 23 na última sexta-feira, chegando a US$ 310 a onça-troy (31,104 gramas), em Nova York. O gatilho para a recuperação foi o anúncio de que a Placer Dome, segunda maior mineradora de ouro do Canadá, estava suspendendo suas atividades de ‘‘hedge’’ (proteção para impedir flutuação de preços), na crença de que os preços do ouro provavelmente subiriam.
Mas, enquanto o mercado de ouro digeria a iniciativa da Placer, a Barrick, maior mineradora do metal no Canadá, limitou a alta ao anunciar que se manteria fiel ao seu programa de ‘‘hedge’’. A alteração promovida pela Placer Dome equivale, na prática, a remover do mercado dois milhões de onças troy anuais. Para se proteger contra as quedas de preços, os grupos de mineração tomam ouro emprestado, pagando juros baixos dos banco centrais, e o revendem para reinvestir em instrumentos de maior rentabilidade.
O ouro tomado de empréstimo é pago com base na produção futura, o que permite que a companhia embolse a diferença. O ‘‘hedge’’ dos produtores respondeu por 445 toneladas, ou mais de 10% do ouro fornecido ao mercado no ano passado, de acordo com a Gold Fields Mineral Services (GFMS), empresa especializada em pesquisa sobre mineração sediada em Londres.
Durante a última década, o total de metal usado em ‘‘hedge’’ equivaleu a cerca de três mil toneladas de ouro físico, vendidas no mercado para financiar as um suprimento total de cerca de 22 mil toneladas do metal. ‘‘Qualquer iniciativa das mineradoras de ouro de reduzir o elemento de ‘‘hedge’’ afetará a oferta e provavelmente conduzirá a um maior potencial de alta para o metal’’, diz Paul Walker, da GFMS.
Os produtores vêm sofrendo crescente pressão para reduzir suas operações de ‘‘hedge’’ em resposta a investidores que acreditam que elas prejudicam o valor de mercado do ouro. Diversos executivos de primeiro escalão das mineradoras acreditam que o nível de proteção precisa ser reduzido, ainda que a maior parte das produtoras tenha decidido manter a prática. ‘‘Há uma crescente tendência entre os produtores de ouro e os investidores de acreditar que as mineradoras estão se prejudicando ao praticar a proteção, garantindo rendimentos de curto prazo, mas prejudicando seu mercado no futuro’’, disse um analista do mercado de metais.
Os outros protagonistas cruciais no mercado de ouro são os bancos centrais. Quando o Banco da Inglaterra anunciou, em abril passado, que venderia 415 toneladas de ouro em barras ao longo dos próximos anos, a decisão foi vista como evidência de que o papel de investimento do ouro havia desaparecido. Depois que o banco realizou seu primeiro leilão do metal, em julho, o ouro caiu à sua cotação mais baixa em 20 anos, US$ 250 por onça troy. ‘‘A proteção não é realmente o que importa’’, alega um analista. ‘‘O ouro está caindo porque é um produto marginalizado e existe um superávit de produção. Optar por não fazer ‘hedge’ não removerá a produção excedente e, no final, os fundamentos ainda apontam para uma queda de preços.

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