São Paulo - Ficou mais barato comprar eletroeletrônicos nos últimos três anos. A queda da cotação do dólar - iniciada em 2004 - teve impacto direto no preço de pelo menos 13 produtos dos 525 analisados pelo diretor do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe), Márcio Nakane.
O telefone celular ficou 72% mais barato, enquanto o videocassete custa hoje 45,7% menos do que há três anos. Alimentos a base de trigo - o macarrão, por exemplo - ficaram com preço até 19% mais baixo. Itens importados, como o bacalhau, custam hoje quase 12% menos do que em 2004.
No caso de celular, computador, impressora e máquina fotográfica, a constante inovação tecnológica torna mais baratos e populares os aparelhos. ''É natural que o preço caia ao longo do tempo'', diz Nakane. ''Mas o dólar em baixa exacerbou este processo.''
O brasileiro passou a gastar menos também na hora de se vestir. Nas camisetas, a redução de preço chega a 4,4%. Pijamas, roupas de bebê e sungas também ficaram mais baratas. Em outras peças, o preço subiu pouco diante da inflação acumulada no período (13,8%), como é o caso do blazer feminino, com aumento de 0,06%.
A queda da moeda americana afeta a inflação brasileira ao tornar mais baratas as peças importadas, usadas na produção de eletrônicos, e ao facilitar a importação de produtos, como roupas, vinhos e bacalhau. Estimula, ainda, a concorrência, já que as empresas brasileiras procuram equiparar o preço dos produtos nacionais ao de importados para conquistar a preferência do consumidor.
Para Nakane, estes efeitos foram sentidos de forma forte entre 2004 e 2005, mas é possível que a inflação continue a acompanhar a queda do dólar. ''Se a moeda americana se mantiver fraca, teremos reflexo nos preços, mas não na mesma magnitude que vimos ate agora'', diz o pesquisador.
O levantamento reúne o preço dos produtos analisados a cada quadrisemana (período de sete ou oito dias) pela Fipe. O comparativo dos últimos três anos foi elaborado por Nakane para mostrar o efeito do dólar na formação dos preços.
Ontem, a taxa de câmbio fechou praticamente estável após a derrocada histórica dos dias anteriores. A moeda americana foi vendida a R$ 1,953, em leve queda de 0,05% sobre o fechamento de quarta-feira. O Banco Central limitou sua intervenção diária ao habitual leilão de compra de dólares, à taxa de corte de R$ 1,9552.
''Ainda não é possível dizer que R$ 1,95 é um novo piso. Por muito tempo, o mercado achou que R$ 2 era o piso informal do Banco Central e depois se viu que não era bem assim'', afirma Francisco Batista, gerente de operações da corretora Hoya.
Para o corretor, se o BC se ausentar do mercado durante dois ou três dias, a taxa ainda pode cair mais. ''Muitos economistas bons já falam que a taxa não deve voltar a R$ 2 por um bom tempo e que ainda pode chegar a R$ 1,85, mas ainda é muito difícil dizer isso com certeza'', acrescenta.
Analistas e corretores do mercado mostram alguma apreensão com as possíveis estratégias da autoridade monetária para deter a taxa. No front macroeconômico, a Fazenda já sinalizou que deve compensar as empresas mais prejudicadas pelo dólar barato. No campo financeiro, analistas começam a recomendar que o BC atue com mais força no mercado futuro de câmbio, para alterar as expectativas sobre o preço da moeda americana.

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