Preço da carne dispara e altas chegam a 30%
De acordo com economistas, elevação no valor da carne bovina não é passageira e deve se estender pelo ano que vem
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de novembro de 2019
De acordo com economistas, elevação no valor da carne bovina não é passageira e deve se estender pelo ano que vem
Simoni Saris - Grupo Folha 
O ovo, o frango e o porco vêm tomando com maior frequência o lugar da carne bovina no prato do brasileiro e o motivo é um conjunto de fatores que fez disparar o preço do boi nos últimos dias. O aumento das exportações, especialmente para a China, associado à alta do dólar, às áreas de pastagem prejudicadas pelas longas estiagens e ao abate de matrizes pelos pecuaristas começam a refletir agora nas gôndolas dos supermercados. Os consumidores já sentem o efeito da alta do preço do produto e têm feito substituições no cardápio para garantir a proteína nas refeições. A má notícia é que essa elevação de preço não é passageira e deve atravessar 2020.

A alta no preço da carne bovina começou a ser sentida há cerca de duas semanas. Em dez dias, o produto subiu quase 20%, mas novos aumentos foram praticados e agora a alta acumulada já chega a 40% em alguns cortes, um recorde histórico no País. Nesta quarta-feira (27), o valor da arroba do boi gordo fechou a R$ 228,85, segundo o indicador Esalq/BM&F.
Alheios às variações dos indicadores econômicos, os consumidores são surpreendidos nos açougues e supermercados com os preços que saltam a cada dia e tentam encontrar alternativas. “Costumo comprar contrafilé, mas levei um susto recentemente. O preço aumentou 100%. Eu pagava R$ 21 no quilo e agora está custando R$ 42. É muito aumento, mas ainda não deixei de comprar, só reduzi a quantidade e tenho variado os tipos de carne, colocado mais frango, peixe e ovos. É um absurdo o aumento de preço. E os salários e as aposentadorias não acompanham. Onde vamos parar?”, questiona a dona de casa Maria Regina Luchini Sanches.
“No mês passado a carne já estava cara, mas nos últimos dias subiu demais. O jeito é comprar ovo e frango, mas mesmo o frango aumentou. O preço da bandeja de coxão mole, que eu costumava comprar com frequência, quase dobrou de preço”, disse a aposentada Maria Carla de Souza.
O fato de os preços terem subido perto das festas de final de ano pode colaborar para novas altas, afirma Adilson Constantino, proprietário da Casa de Carnes Londrina. Em outros períodos, o aumento costuma espantar os consumidores, mas dessa vez o que o comerciante tem observado são clientes preocupados em garantir as carnes para as ceias de Natal e Ano Novo. “Nos últimos 20 dias, subiu 30% e a cada semana sobe mais. O preço do boi vivo aumentou 53% no mês e a tendência é que a alta para o consumidor final chegue até esse patamar. Se os consumidores deixassem de comprar, poderia dar uma segurada no preço, mas não é isso o que está acontecendo. O pessoal está comprando para estocar.”
Redução do rebanho interno, alto abate de fêmeas nos últimos dez anos, aumento das exportações, substituição de áreas de pastagem por lavouras de soja e estiagem, aumento da exportação e o mercado aquecido com as festas do final de ano e o pagamento do 13º salário aos trabalhadores. Tudo isso contribuiu para os aumentos, apontou Fábio Mezzadri, economista do Deral (Departamento de Economia Rural), da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento). “A gente teve uma situação de baixa rentabilidade do produtor durante alguns anos, com a arroba vendida a preços baixos, aumento do preço dos insumos e do custo de mão de obra. O produtor ficou descapitalizado”, disse o economista.
Após um período difícil, os pecuaristas começam agora a repor os rebanhos e o aumento do preço dos bezerros é um indicativo do mercado aquecido. O preço do animal saltou de R$ 1.300 para cerca de R$ 2 mil. “O cenário é otimista”, garantiu Mezzadri.


