São Paulo A crise que o setor de algodão enfrenta este ano não deve produzir impacto importante sobre a produção da próxima safra. O produto está com preços achatados tanto no mercado interno como no exterior, por causa do excesso de oferta. No Brasil, o câmbio desfavorável à exportação complica o fechamento das contas da lavoura.
Os preços no mercado físico atualmente são inferiores ao valor mínimo oficial teoricamente garantido pelo governo (R$ 44,60 por arroba) em mais de 20%. Os programas de apoio à comercialização lançados pelo governo federal para reduzir o prejuízo da lavoura não surtiram o efeito esperado e a pressão da oferta de algodão do cerrado continua deprimindo as cotações.
Parte dos cerca de 1,5 mil participantes do V Congresso Brasileiro de Algodão, reunidos esta semana em Salvador, admite redução na área plantada em 2005/06, enquanto outra parcela de produtores e operadores de mercado aposta na manutenção da área cultivada. O presidente do congresso, João Carlos Jacobsen, admite esperar uma redução de área de até 10% no País na nova safra, embora na Bahia o plantio deva aumentar.
''O produtor não tem recursos com a crise da comercialização deste ano, tem dificuldade de acesso a crédito e, mesmo que mantenha a área plantada, tende a reduzir o uso de tecnologia'', disse. O crescimento de área na Bahia decorre da alta qualidade do produto, que é cultivado com irrigação suplementar e tem grande aceitação do mercado externo. Mais da metade da nova colheita baiana já foi comercializada antecipadamente, daí a segurança do produtor para o plantio.
Andrew Macdonald, presidente da Associação Brasileira do Algodão (Abralg) e consultor da Santista Têxtil, é cauteloso com as previsões de preços melhores no ano que vem, que considerando a estimativa de duplicação das importações chinesas, para 2,8 milhões de toneladas, feita pelo Comitê Consultivo Internacional do Algodão (ICAC, International Cotton Advisory Committee).
''A China tem limitações que incluem oferta de energia para a indústria, além de operar com matéria-prima consignada. A indústria chinesa também luta para atender às elevadas exigências de qualidade nos produtos têxteis que exporta para os Estados Unidos e União Européia'', destacou.
Para Macdonald, houve retrocesso este ano em relação à comercialização. ''Lutamos muito para reunir a cadeia produtiva em torno de propostas de ações governamentais que beneficiassem a todo o setor. Agora a cadeia se desarticulou e o apoio à comercialização foi dirigido à lavoura. E a própria lavoura não conseguiu uma posição de consenso sobre os programas de Prêmio de Escoamento de Produto (PEP) e Prêmio de Risco para Contratos Privados de Opção de Venda (Prop)'', lamentou. Mais que causar desentendimentos, os programas não atingiram seu objetivo principal de garantir o pagamento do preço mínimo oficial ao produtor.

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