Brasília - A combinação de prazo curto de vencimento e a correção automática de parte da dívida pública pela cotação do dólar são apontadas por analistas como uma ameaça à estabilidade econômica do Brasil. Com medo de que haja uma suspensão dos pagamentos no próximo governo, os investidores cobram alto para rolar títulos que estão vencendo e querem se livrar de papéis que vencem a partir de 2003. Isso reduz o prazo médio de rolagem da dívida que vinha sendo elevado nos últimos anos.
A instabilidade no mercado, que tem gerado procura por dólares e aumentado a cotação da moeda estrangeira, causa enorme prejuízo ao governo, já que um terço dos R$ 633,2 bilhões em títulos que estão em poder do mercado tem sua rentabilidade vinculada ao dólar. O Fundo Monetário Internaciopnal (FMI) já recomendou ao governo que busque reduzir a parcela dolarizada da dívida.
O pacote de medidas anunciado pelo governo tenta atacar esses pontos. No entanto, há um forte componente político na crise que foge à alçada de medidas técnicas da equipe econômica. Ontem, devido ao nervosismo generalizado do mercado, o Tesouro suspendeu o leilão de títulos que realizaria na semana que vem. O governo trabalha com a possibilidade de o Tesouro recomprar títulos que estão vencendo em vez de rolar esses papéis.
‘‘O risco que se corre é que esse nervosismo leve a uma situação insustentável da dívida’’, avalia o economista Dany Rappaport, da Consultoria Tendências. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, insistem que a situação é perfeitamente administrável. Segundo eles, a dívida pública pode ser conduzida normalmente sem a suspensão de pagamentos.
Para Malan, o aumento do esforço fiscal previsto para este ano e para 2003 deverá assegurar a manutenção da relação da dívida líquida do setor público com o Produto Interno Bruto (PIB) nos níveis atuais.
No final de abril, a dívida líquida do setor público chegou a R$ 684,6 bilhões, o equivalente a 54,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Quase a metade desse total é afetada diretamente pelas oscilações no câmbio. A desvalorização de 6,7% do real em maio, por exemplo, fez a dívida aumentar R$ 20,7 bilhões.

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