Pratini alerta para protecionismo agrícola
Agência Estado
De Brasília
As negociações da Rodada do Milênio, que se iniciam no mês de novembro em Seattle, nos Estados Unidos, serão fundamentais para se traçar os novos rumos da agropecuária brasileira. Para o ministro da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Moraes, o futuro do setor depende muito do grau de acesso que os produtos agrícolas produzidos no País terão nos mercados internacionais.
Pratini de Moraes é categórico ao defender a necessidade de incluir a discussão sobre produtos agrícolas nas reuniões que acontecerão a partir de novembro. Se a Rodada do Milênio não incluir os temas agrícolas o ministro garantiu que as negociações serão um fracasso, assim como ocorreu na Rodada do Uruguai. Corremos o risco de assistirmos a uma nova rodada protecionista no mundo, ressaltou.
Na entrevista, o ministro da Agricultura defendeu a necessidade de incrementar as exportações brasileiras de produtos agrícolas, principalmente de carnes e frutas. Pratini também afirmou que é preciso combater o problema de renda do setor, e voltou a defender a proposta do governo feita aos produtores rurais para resolver o impasse sobre a questão das dívidas.Era o possível.
Pela sexta vez à frente de um ministério, sendo a terceira como ministro efetivo, Pratini de Moraes acredita que o governo conseguirá apoio junto ao Congresso para aprovação das medidas que visam o ajuste fiscal e a recuperação do ritmo de crescimento e convoca os parlamentares para participarem das negociações internacionais para a abertura de mercados para os produtos agrícolas brasileiros. Negociações internacionais dependem de força política, assegurou.
Abrimos nosso mercado e os outros não
Agência Estado - O que muda no ministério da Agricultura com a entrada de um ministro fortemente ligado ao comércio exterior?
Marcus Vinícius Pratini de Moraes - Quando o problema das exportações se configurou com a gravidade que tem hoje, todo mundo se deu conta que é fundamental para o País aumentar as exportações, primeiro porque é um fator de crescimento econômico, segundo porque você precisa de dólares, precisa gerar saldo comercial. O presidente solicitou que eu assumisse o Ministério da Agricultura e tivesse uma participação mais ativa nas negociações internacionais porque agora é crucial que na Rodada do Milênio a negociação de produtos agrícolas seja incluída. O futuro da agropecuária do Brasil dependerá muito do grau de acesso que tivermos aos mercados internacionais. A Rodada do Uruguai, do ponto de vista de produtos agrícolas, foi um fracasso. Nós abrimos a nossa economia mas ninguém abriu seus mercados para nós. A questão dos produtos agrícolas precisa ser discutida durante a Rodada do Milênio ou corremos o risco de assistirmos a uma nova rodada protecionista no mundo.
AE - Quais são as propostas que o governo brasileiro pretende defender junto às demais delegações que participarão da Rodada do Milênio na questão agrícola ?
Pratini - Fizemos três propostas que foram acolhidas durante a reunião de Cairns (realizada em Buenos Aires, na Argentina, no final de agosto). Temos que combater e exigir a gradativa redução dos subsídios às exportações que são dados pelos Estados Unidos e por países da União Européia. Estes subsídios são responsáveis pela queda de preços das commodities nos mercados internacionais. Em segundo lugar, defendemos a necessidade de termos acesso a mercados. A exemplo do que fizemos para produtos industriais na Rodada do Uruguai, nós agora queremos abertura de mercados para produtos agrícolas. Por último, defendemos que os países como Estados Unidos, Japão e países europeus devem diminuir gradativamente os seus mecanismos de apoio interno à agricultura, que são na verdade subsídios internos gigantescos que acabam representando também fator de depressão nos preços do mercado internacional. Representam no fundo uma forma de dumping nos preços das commodities internacionais.
AE - O grande desafio à frente do ministério da Agricultura é ampliar estas exportações brasileiras ?
Pratini - O desafio que tenho pela frente é transformar a agricultura num fator de desenvolvimento do País porque o Brasil será dentro de 12 a 15 anos a maior nação agrícola do mundo. Nós não nos demos conta ainda da importância que tem a agricultura para este País. Questões como a reforma agrária e problemas da dívida do setor estão sobrepondo a realidade agrícola que é muito mais punjante. Essa agricultura que está se desenvolvendo no País vai ser a maior agricultura do mundo. O problema, a meu ver, não é de produção. Eu não sou produtivista. O problema da agricultura brasileira não é, primariamente, produção mas sim renda. Se tiver renda vai ter produção, caso contrário não.
AE - E como se cuida disso?
Pratini - É preciso ter preço, mas preço é função do mercado internacional, por isso o meu objetivo é abrir acesso para os produtores brasileiros chegarem nestes mercados. Se conseguirmos esta abertura teremos preços e renda.
AE - Esta percepção está difundida entre produtores e lideranças do setor rural brasileiro?
Pratini - Dentro do governo certamente e no âmbito dos produtores também. Nessa discussão que houve no Congresso sobre o problema das dívidas dos produtores, que no fundo é um problema de insuficiência de renda, definimos a formação de uma comissão conjunta do Senado e da Câmara para discutir, fundamentalmente, este problema.
AE - A questão das dívidas dos agricultores, do ponto de vista do governo, está resolvida?
Pratini - Nós resolvemos o problema da grande maioria dos agricultores através da medida que tomamos, especialmente dos produtores que tinham dívidas menores. Mas há ainda um número muito grande de agricultores que têm legítimos problemas e que precisam ser equacionados. Existe um erro de base no sistema de financiamento agrícola brasileiro. A agricultura não pode ter financiamento com taxa variável. Ela tem que ser financiada em taxa fixa ou com equivalência de produto.
Somos os maiores
exportadores de carne para EuropaAE - Quais são as prioridades do ministério dentro do programa de exportações?
Pratini - Dentro do programa traçado de exportações estabelecemos duas prioridades, a primeira delas será carnes. Queremos incrementar a exportação de carne bovina para os Estados Unidos, Canadá e para mercados como Japão e países da Europa. Também estamos querendo ampliar a venda de suínos para a Austrália e Nova Zelândia. Nós já somos os maiores exportadores de carne para Europa, já desbancamos a Argentina. A segunda prioridade são as frutas. É um produto de valor agregado e o setor tem uma outra virtude, a de criar mercado para pequenos agricultores, para a agricultura familiar. De janeiro a maio do ano passado o Brasil exportou 51 milhões de toneladas de frutas (exceto laranja e castanha). No mesmo período deste ano as exportações atingiram 75 milhões de toneladas. A nossa meta é até o final do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso elevar estas exportações para US$ 2 bilhões.
AE - O governo terá sustentação junto ao Congresso Nacional para conduzir todas as propostas apresentadas no Plano Plurianual, inclusive as ligadas à agricultura?
Pratini - Eu não vejo nenhuma contradição ou dificuldade do governo construir apoios para estas medidas que visam completar o ajuste fiscal e fazer o País voltar a crescer. O Brasil não pode é não crescer. O País foi obrigado a não crescer devido a pressão do ajuste fiscal acoplado às crises internacionais que nos afetaram nos últimos dois anos. Eu tenho defendido junto aos parlamentares a necessidade de uma maior participação do legislativo em negociações internacionais para abertura de mercados, assim como ocorre nos Estados Unidos e na Europa.Ministro diz que futuro da agropecuária brasileira será definido pelo grau de acesso dos produtos aos mercados internacionais
Arquivo FolhaPRODUTOS PREFERENCIAISPara Pratini de Moraes, carnes e frutas devem ser prioridade na pauta de exportações do Brasil





