Os sistemas integrados de manejo evoluíram muito nas ultimas três décadas a ponto de várias práticas se transformarem em políticas públicas para o campo. O problema é quando leis, orientações ou simples planejamentos são desrespeitados pelo agricultor, fazendo com que velhos inimigos voltem a surgir na lavoura. Um alerta vindo dos pesquisadores de pragas da soja da Embrapa serve como exemplo: o país está regredindo para os índices da década de 1970 na aplicação de defensivos agrícolas.
Para o pesquisador Adeney de Freitas Bueno, que atua na área de entomologia (pesquisa de insetos) da Embrapa em Londrina, as lavouras brasileiras estão sobrecarregadas de agrotóxicos. ''Em 1975, no ano da criação da Embrapa, a média era de seis a sete aplicações por ciclo. Com o incentivo ao plano de manejo, que identifica o momento certo da aplicação dos defensivos, esta média caiu para duas aplicações em 1980. A partir de 2002, a média nacional voltou a subir para os mesmos índices de trinta anos atrás. Um retrocesso'', avalia Bueno.
Os motivos para o uso desregrado de agrotóxicos, segundo o entomologista, estaria na ''programação de calendário'' e na ''tentativa de otimizar as operações'' nas propriedades. ''A maioria dos agricultores segue apenas datas e quando ele se prepara para aplicar glifosato, por exemplo, já coloca inseticida junto para aproveitar a passada do trator. Além de ineficiente, a mistura de dois defensivos é uma operação ilegal'', alerta o pesquisador.
Pela analogia de Bueno, ''dar remédio sem que apareça a dor de cabeça'', fez com que a resistência das pragas aumente durante os anos, necessitando de mais aplicações até chegar aos atuais índices. Como exemplos, ele cita o aumento da lagarta mede-palmo e até do ácaro. O efeito se dispersa em outras categorias de pragas, como fungos, bactérias e ervas daninhas. ''O que defendemos é um sistema integrado porque o controle químico por si só não se sustenta. O problema é que nós vemos a situação de maneira técnica e o agricultor tem na cabeça a visão empresarial. Muitos deixam de usar o manejo adequado devido aos custos'', diz Dionísio Luis Pisa Gazziero, pesquisador de ervas daninhas da Embrapa em Londrina.
A afirmação parece conflitar com as referências atuais, principalmente quando se trata de transgênicos, pois uma variedade de soja que resiste ao glifosato estaria protegida de pelo menos 150 ervas daninhas. ''Não é bem assim. Temos cerca de 400 plantas daninhas potencialmente perigosas para a soja. É preciso equilibrar o controle químico para que não ocorra desequilíbrio na proliferação das pragas'', calculou Gazziero, recordando dos tempos em que as ''piores ervas inimigas'' eram o capim marmelada, o picão-preto e o amendoim bravo, entre outras. Aliadas às novas variedades de sementes, técnicas simples como o plantio direto, o uso de cobertura morta e a revisão nos espaçamentos entre plantas reduziram o avanço de inúmeras pragas na lavoura entre 1980 e 2000. ''Hoje isso mudou. Vemos o aumento, por exemplo, do capim amargoso, da buva e da corda-de-viola, devido ao manejo inadequado'', afirma.

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