Desafiando ameaças de morte feitas por grupos islâmicos fundamentalistas, mais de 70% dos 16 milhões de eleitores argelinos compareceram ontem ao referendo constitucional, destinado a aumentar os poderes presidenciais e afastar os partidos religiosos da vida política do país.
‘‘Vamos cortar a cabeça de quem votar’’, advertiam, em panfletos espalhados pelas ruas da capital, a proscrita Frente Islâmica de Salvação (FIS) e o Grupo Islâmico Armado (GIA).
Vigiada por 300 mil policiais e soldados, a votação transcorreu sem incidentes sérios, pelo menos nas principais cidades do país. O Exército concentrou suas tropas principalmente no interior, mas havia unidades policiando bairros pobres de Argel.
O esquema de segurança dentro do país está a cargo principalmente dos guardas comunais e dos ‘‘patriotas’’ - civis armados pelas autoridades -, que vigiam as estradas e os povoados.
Desde as 8 horas locais, debaixo de chuva intensa, os eleitores começaram a chegar às escolas de Argel (3 milhões de habitantes), a maior circunscrição eleitoral.
No centro da cidade, pela manhã, a participação parecia muito menor do que a registrada no mesmo horário durante a eleição presidencial. O número de jovens eleitores era muito pequeno, em um país onde 70% da população têm menos de 30 anos.
O presidente Zerual votou logo cedo e declarou que a vontade do povo será respeitada.
‘‘Vim votar para não ser acusado de inimigo da nação’’, afirmou um argelino de 80 anos - um dos primeiros a chegar a um posto no centro da cidade. As filas nesses locais eram duplas: uma para homens; outra para mulheres. Uma hora antes do encerramento, já haviam depositado voto 71,94% dos eleitores inscritos - 6% a mais do que o índice verificado nas eleições presidenciais de novembro. Boa parte da chamada imprensa independente argelina apostava ontem na vitória do ‘‘sim’’.
A oposição, formada pela Agrupação para Cultura e Democracia e pela Frente das Forças Socialistas, boicotou o plebiscito. As duas agremiações se opõem radicalmente às mudanças pretendidas por Zeroual - em especial a que permite a ele nomear diretamente um terço do Conselho da Nação. A Argélia vive em estado de emergência desde 1992, quando o governo anulou eleições que seriam, segundo pesquisas, vencidas pela FIS, baniu a frente e prendeu seus dirigentes. Mais de 60 mil pessoas morreram na violência política desde então.

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