A portaria 145, do Ministério da Agricultura, que restringe a desossa de carne pelos estabelecimentos varejistas sem inspeção, não foi bem recebida pelos pequenos varejistas. O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Carnes Frescas do Estado do Paraná, Marino Poltronieri, atribuiu a nova legislação a ‘‘um lobby forte para acabar com os açougues’’ no país. A implantação da portaria vai representar uma elevação de custos avaliada entre 3% e 4%, pelo presidente do Sindicato da Indústria da Carne, Luiz Carlos Setim. A portaria 145 entra em vigor no dia quatro de janeiro de 1999.
A divergência do sindicato varejista foi revelada ontem, durante seminário promovido pela delegacia regional do Ministério da Agricultura, que apresentou as novas regras de comercialização de carne bovina. Para os demais setores participantes do seminário, ficou evidente que a portaria 145 vai alavancar a modernização do comércio de carnes e vai auxiliar no combate à carne clandestina.
Foto:Albari RosaOlivir, do Frigolaine: favorável à legislação Clandestinos O proprietário do frigorífico Frigolaine, de Curitiba, Olivir Ivankio, acha que a portaria vai inibir a compra de carne clandestina.
Segundo ele, tem muito açougue que compra uma carcaça de carne com inspeção e identificada na origem e outras três carcaças clandestinas. ‘‘No açougue, ele utiliza uma etiqueta para todas as carcaças se for pressionado pela fiscalização’’, disse.
O diretor do Serviço de Inspeção do Paraná (SIP), Renato Luiz Lobo Miró, admite que essa prática ocorre realmente, e que ela só pode ser combatida com um reforço de fiscalização. Para acompanhar o cumprimento da portaria 145, o chefe do Serviço de Inspeção Federal (SIF), Valmir Kowaleski, disse que serão constituídas equipes conjuntas do Ministério da Agricultura, SIP, Promotoria Pública, Vigilâncias Sanitárias estadual e municipais que inicialmente vão fazer a fiscalização preventiva e de orientação para depois punir os estabelecimentos que não se enquadrarem à legislação.
Para Marino Poltronieri, com a portaria 145 deverão reduzir as vendas nos açougues, porque o consumidor deverá preferir o produto dos grandes supermercados que poderão ter permissão para desossa. Isso porque o consumidor está acostumado com a desossa na hora. Ele desconfia da carne desossada enviada em caixotes pelos frigoríficos.
Ele não se conforma que os açougues não vão mais poder fazer a desossa da ‘‘bola’’, termo usado para a peça que concentra cortes de carnes de primeira como o coxão mole, coxão duro, patinho, lagarto, alcatra e contrafilé.
Inspeção Também os frigoríficos terão de fazer investimentos para se adaptarem à nova legislação, disse o diretor executivo do Sindicarnes, Péricles Salazar.
Dos 18 frigoríficos com Inspeção Federal existentes no Paraná, apenas 10 têm instalações adequadas para fazer a desossa. O frigorífico que não se adaptar às regras poderá fazer a desossa em outro estabelecimento credenciado.
Para Salazar, a desossa de carne vai representar um agregamento de valor para o frigorífico que terá que ser paga pelos varejistas. Mas por outro lado, a portaria 145 vai garantir ao consumidor um produto de qualidade, sendo que ele vai saber exatamente o que está comprando.
A portaria vai preservar as preferências regionais de consumidores como a compra de carne com osso, como no caso da costela e de carnes do dianteiro. Nesse caso o consumidor leva a carne com o osso para casa, garantiu.
O chefe da Divisão de Alimentos da Secretaria Saúde, Paulo Guerra, responsável pelo impacto da legislação junto ao consumidor admite que o setor mais penalizado será o pequeno comércio varejista de carne. Por outro lado ele salientou que a portaria representa uma segurança ‘‘de primeiro mundo’’ ao consumidor. Porque ele terá a garantia sobre a procedência, idade e data de abate, além de eliminar o excesso de manipulação que só deprecia o produto.

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