Por que a crise russa preocupa tanto?
Diane Craft
Reuters
Tem um velho ditado no mundo dos negócios. Se você toma emprestado do banco US$ 10 milhões, este banco manda em você. Mas se você toma emprestado US$ 10 bilhões, você manda no banco. A Rússia, nos dias atuais, tomou emprestado muito dinheiro do banco, e este banco é o Ocidente.
Enquanto os mercados financeiros russos se deterioram e os políticos locais tentam solucionar a crise com uma reunião atrás da outra, acontece uma luta intensa nos bastidores internacionais para assegurar que a Rússia não caia de vez.
Cada um dos países do Grupo dos Sete (G-7), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os principais banqueiros ao redor do mundo trabalham para que isso não ocorra.
As razões financeiras são óbvias. De acordo com uma análise do banco Morgan Stanley, apenas os bancos comerciais europeus são credores de cerca de US$ 40 bilhões da Rússia.
Mas há várias razões para se preocupar além do dinheiro. Eric Fine, um analista do Morgan Stanley, afirma que você pode resumir a preocupação ocidental em três palavras: ‘‘nuclear, geografia, e efeito dominó’’.
Segundo Fine, que é responsável pelos débitos da Rússia e do Leste Europeu, o ângulo nuclear dificilmente será esquecido à luz dos recentes eventos ocorridos na Índia e no Paquistão.
‘‘Você tem que se preocupar com qualquer implicação política de uma rápida desvalorização do rublo, especialmente depois do que ocorreu recentemente com outras possíveis potências nucleares da região’’, diz ele.
As ramificações políticas de um colapso da economia russa seriam graves porque isto poderia afetar diretamente o sistema político, que já vem sendo corroído desde o fim da Guerra Fria.
Analistas dizem que um colapso econômico poderia colocar as reformas russas, tão incentivadas pelo Ocidente, em colisão direta com os extremistas de linha dura.
No início da semana passada, especuladores venderam rublos abundantemente, autoridades triplicaram as taxas de juros para 150% ao ano e várias agências de classificação de risco rebaixaram a nota atribuída ao país.
Mas, no final da mesma semana, alguns banqueiros foram vistos demonstrando um otimismo cauteloso. O Ocidente, afirmaram eles, poderia surgir com um pacote de ajuda financeira, pressionando o FMI ou assegurando que a comunidade financeira internacional estaria pronta para sair em auxílio com fundos necessários para evitar um colapso político russo.
Para alguns especialistas, qualquer instabilidade econômica que pudesse gerar instabilidade política teria implicações diretas na Alemanha, devido à sua proximidade com a Rússia.
Geografia é muito, muito importante. A Rússia é geopolitica e estrategicamente um país importante.
E então há a idéia do efeito dominó.
Um colapso financeiro na Rússia ecoaria ao redor do mundo exatamente num momento em que a economia global ainda procura se recuperar da crise asiática.
Para o vice-secretário do Tesouro dos EUA, Lawrence Summers, ‘‘o problema russo tem o potencial de transformar o Leste Europeu e o mundo’’.
Certamente, economias do G-7 - como Alemanha e os Estados Unidos - e de países emergentes poderiam ser afetadas caso a Rússia não receba a ajuda necessária para solucionar os seus problemas.
‘‘É obvio que há implicações geopolíticas, há ligações de negócios com a Rússia e há reflexos financeiros que serão sentidos diretamente nos mercados globais’’, diz Oliver Fratzcher, economista-chefe do banco holandês ABN AMRO.
Os banqueiros internacionais estão tentando colocar o ônus da crise russa sobre os políticos. Rolf Breuer, chefe-executivo do Deutsche Bank, o maior banco comercial alemão, afirmou ontem que governos e instituições internacionais, mais que os bancos, deveriam ajudar a Rússia em primeiro lugar. ‘‘Nas circunstâncias atuais, governantes e instituições, como o FMI, são chamados a ajudar, e essa é a coisa certa a se fazer’’, afirma Breur.
Mas mesmo nessa área, no entanto, há sinais de que alguns bancos estão procurando fazer mais. Especialistas em crédito baseados em Londres afirmaram ontem que bancos comerciais estão estudando a idéia de levantar US$ 5 bilhões para enviar a Moscou.
Certamente, tais fundos não sairiam baratos nas atuais circunstâncias e seriam considerados um remédio de curto prazo. Estimativas dão conta de que a Rússia precisa de cerca de US$ 5 bilhões a US$ 15 bilhões em dinheiro novo, mas, segundo Fine, analisando o cenário presente, seriam necessários algo em torno de US$ 40 bilhões.
A bola, então, volta ao campo dos governos ocidentais.
De acordo com o ministro de Finanças francês, Dominique Strauss-Kahn, a França e os outros seis do G-7 trocaram telefones ontem sobre a crise econômica na Rússia.
Se isso se converterá em dinheiro vivo é outra história. Mas enquanto isso não acontece, banqueiros afirmam que o mercado não tirará os olhos da Russia em nenhum instante.
DIANE CRAFT é jornalista

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