São Paulo - Sem gás natural para manter o crescimento de 10% ao ano, o Pólo Cerâmico de Santa Gertrudes, responsável por 65% da produção nacional de cerâmica de revestimento do País, se prepara para congelar investimentos em 2008. É o primeiro setor industrial brasileiro que faz um anúncio tão categórico em relação à falta do combustível. Neste ano, o Brasil vai produzir 650 milhões de metros quadrados de revestimento cerâmico, dos quais 420 milhões sairão dos fornos das indústrias da região de Santa Gertrudes, em São Paulo.
Chamado a converter os fornos até então abastecidos com GLP (o gás de cozinha) para o gás natural - a partir de metade da década de 90, quando a Petrobrás e o governo federal propalavam as vantagens competitivas da novidade energética - , o setor ceramista sente-se agora num beco, e o futuro depende da expansão da oferta. Não há alternativa ao gás natural. ''Qual distribuidora de GLP vai investir numa nova estrutura para fornecer ao setor cerâmico?'', pergunta João Oscar Bergstron Neto, presidente da Associação Paulista das Cerâmicas de Revestimento (Aspacer).
Segundo a associação, a indústria precisaria elevar o consumo de gás para 403 milhões de metros cúbicos ao longo de todo o próximo ano, 40 milhões de metros cúbicos a mais do que o consumo alcançado neste ano, período em que a expansão chegou a 11%, segundo estima a Aspacer. Não vai conseguir.
Algumas indústrias já foram intimadas pela Comgás a reduzir a produção por falta do combustível. A suspensão do fornecimento ocorre ainda sobre os contratos precários, considerados ''sem garantia firme'' de entrega. Ou seja, o fornecimento pode ser interrompido em caso de escassez, como ocorre agora. Os contratos com garantia firme não foram atingidos, mas a situação aborta qualquer necessidade de crescimento futuro. E perspectiva para tanto não falta.
O pólo é considerado o mais competitivo na produção de revestimento cerâmico. Diferente do pólo de Santa Catarina, o pólo paulista aproveitou uma oferta da natureza: jazidas enormes de uma argila que não necessita de preparação especial para produção das placas cerâmicas, o que reduz o custo com energia na fase inicial da produção.
A falta de nova oferta de gás deve interromper investimentos de R$ 100 milhões em dez novos fornos que deixarão de ser instalados no pólo no próximo ano. O Pólo Cerâmico de Santa Gertrudes é formado por 36 indústrias. ''Era a nossa expectativa. Há vários anos estamos crescendo em média 10% por ano e em 2008 será o primeiro ano que não poderemos crescer nada por falta de gás. É algo realmente inacreditável'', diz Bergstron Neto, que, além de presidente da associação, é também ceramista.

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