Em um país onde o acesso a serviços como Google e Facebook são proibidos, os chineses fazem uso massivo de tecnologia própria. Lá, o que conhecemos como Uber é o Didi, como Google, Baidu, e como WhatsApp, WeChat. E os chineses usam o AliPay, aplicativo do grupo Alibaba (o mesmo do AliExpress), até mesmo para os pagamentos mais simples.

A China tem uma cultura milenar, mas o desenvolvimento econômico do País hoje é impulsionada pela tecnologia. A empresa que se tornou centro da guerra comercial americana com a China é considerada uma das líderes na corrida do 5G no mundo e revelou, durante o Huawei Connect 2019, realizado de 18 a 20 de setembro em Xangai, sua estratégia para conquistar o mercado de computação, que deve chegar a US$ 2 trilhões nos próximos dez anos. A Folha de Londrina esteve presente no evento junto a outros dois veículos de imprensa brasileiros convidados.

Huawei Connect 2019 foi realizado de 18 a 20 de setembro em Xangai
Huawei Connect 2019 foi realizado de 18 a 20 de setembro em Xangai | Foto: Mie Francine Chiba

Apesar de enfrentar sérias sanções do governo norte-americano, relatório divulgado pela Huawei mostrou que, no primeiro semestre, a companhia teve crescimento de 23,2% na receita sobre o mesmo período do ano passado, atingindo os CNY 401,3 bilhões (aproximadamente US$ 56,2 bilhões).

A maior parte - CNY 220,8 bilhões - é proveniente da venda de smartphones, tablets, PCs e vestíveis, no segmento de consumo. Responsável pela venda de 206 milhões de unidades de dispositivos móveis em 2018, a Huawei ficou com o terceiro maior market share do mercado de smartphones mundial, atrás apenas de Samsung e Apple, segundo o site Statista. Por outro lado, a marca é líder do mercado mobile chinês, segundo a consultoria Canalys. No segundo quadrimestre do ano, bateu o recorde de 38% de market share em oito anos no País. No período, a Huawei despachou 37,3 milhões de unidades de smartphones para o mercado interno.

Huawei tem maior market share do mercado de smartphones da China
Huawei tem maior market share do mercado de smartphones da China | Foto: Mie Francine Chiba

A receita proveniente de negócios com as operadoras atingiram os CNY 146,5 bilhões, com crescimento estável na produção de envios de equipamentos de telecomunicações. Até o momento, a Huawei tem 50 contratos comerciais de 5G e despachou mais de 150 mil estações rádio base para o mercado mundial. No Brasil, a chinesa realiza testes em parceria com todas as principais operadoras, e a expectativa é que os primeiros contratos da tecnologia no País sejam firmados em 2020, afirmaram executivos da companhia.

Os negócios da chinesa no mercado corporativo - que inclui nuvem, Inteligência Artificial, data centers e Internet das Coisas, por exemplo - alcançaram os CNY 31,6 bilhões nos primeiros seis meses do ano, com foco nos setores de governo, serviços públicos, finanças, transportes, energia e automotivo.

O governo norte-americano acusa a Huawei de promover espionagem em favor do governo chinês através de seus equipamentos e soluções, e chegou ao ponto de colocá-la em uma lista negra de empresas com as quais as companhias estadunidenses estão proibidas de fazer negócios.

Diante da insistência da imprensa internacional em tocar no assunto, a chinesa reforçou, durante o Huawei Connect 2019, que as acusações dos EUA em relação à segurança de seus equipamentos e soluções não têm sustentação. Durante coletiva de imprensa, o vice-presidente da Huawei, Ken Hu, voltou a dizer que as acusações dos EUA em relação à segurança do 5G da empresa são infundadas e baseadas apenas em palpites. Ele também confirmou a proposta da empresa – já revelada pelo CEO Ren Zhengfei a repórter do The New York Times - de compartilhar sua tecnologia de quinta geração com empresas norte-americanas. Para Hu, a estratégia tem o potencial de aumentar a competitividade da indústria do 5G e ajudar a reduzir as preocupações com a segurança.

Ken Hu, vice-presidente da Huawei, apresenta estratégia da companhia para conquistar o mercado de computação
Ken Hu, vice-presidente da Huawei, apresenta estratégia da companhia para conquistar o mercado de computação | Foto: Divulgação

Conhecida por soluções de conectividade, agora a Huawei adota uma estratégia agressiva em direção ao valioso mercado de computação, que deve atingir US$ 2 trilhões nos próximos dez anos, segundo a consultoria Gartner. A estratégia é vista como um meio de impulsionar tecnologias de Inteligência Artificial e deve se concentrar em diferentes frentes. O investimento em processadores e na inovação da sua arquitetura é uma delas.

No evento em Xangai, Hu lançou o Atlas 900, considerado o mais rápido conjunto de processadores para treinamento de Inteligência Artificial. Para que uma Inteligência Artificial passe a reconhecer um gato, por exemplo, ela precisa ser alimentada com milhões de imagens do animal para que o sistema chegue às suas próprias conclusões sobre o que é um gato, algo que exige um grande poder de computação, explicou o vice-presidente em sua apresentação. “Aplicações mais complicadas, como direção autônoma, astronomia e previsão do tempo vão usar ainda mais computação.”

Algumas aplicações reais do Atlas 900 apresentadas pelo vice-presidente são na área da astronomia. Na ocasião, ele mostrou que a tecnologia é capaz de encontrar dentro de um universo de dados de 200 mil estrelas do Hemisfério Sul uma estrela com características específicas em apenas 10 segundos, enquanto um astrônomo levaria 169 dias de trabalho em tempo integral para terminar a tarefa.

No evento em Xangai, a companhia também anunciou o investimento de US$ 1,5 bilhão em um programa de desenvolvedores, dentro da sua estratégia de criar um ecossistema aberto para impulsionar o desenvolvimento de aplicações e soluções inteligentes. Atualmente, há 1,3 milhão de desenvolvedores no ecossistema, e a expectativa é que esse número atinja os 5 milhões em cinco anos. “A computação sempre foi uma indústria aberta. Nenhuma indústria pode se sustentar sozinha uma indústria inteira. Crescimento saudável requer um ecossistema aberto e colaboração global”, disse o vice-presidente.

'Era da Inteligência'

A Huawei considera que em breve o mundo deverá entrar na era da inteligência e, por isso, tanto computação quanto conectividade se fazem cruciais. Para Ken Hu, vice-presidente da Huawei, a conectividade é necessária para coletar dados, mas só isso não é suficiente. Também é preciso computação para obter inteligência a partir dos dados.

“Quando a maioria das pessoas pensa na Huawei, elas pensam em conexões. É verdade que estamos investindo ininterruptamente em conectividades nos últimos 30 anos. Mas nosso trabalho não para em conectividade. Se nosso gol é construir um mundo inteligente, conexões e computação são chave, são inseparáveis. Em termos de investimentos da Huawei, ambos são igualmente importantes”, disse o vice-presidente, na abertura do Huawei Connect 2019.

Estima-se que, daqui a cinco anos, a computação de Inteligência Artificial vai representar mais de 80% de todo o poder computacional usada no mundo, destacou Hu.

* A jornalista viajou para Xangai a convite da Huawei

RESPOSTA À OFENSIVA NORTE-AMERICANA

Na visão de Rui Luis Andrade Aguiar, membro do conselho do NetWorld2020, Plataforma Europeia de Tecnologia para redes e serviços de comunicações e head de Rede e Multimídia do Instituto de Telecomunicações de Portugal, a proposta da Huawei de licenciar a sua infraestrutura de telecomunicações para companhias norte-americanas foi a maneira encontrada pela empresa de mostrar que não existem problemas de segurança no seu 5G. Provar inocência, no entanto, pode ser mais difícil que provar um crime.

O especialista, que foi convidado a participar de uma mesa redonda no Huawei Connect 2019, opina que não existem evidências que suportem as acusações dos EUA contra a Huawei. A pressão exercida pelo governo norte-americano, porém, tem o potencial de gerar cautela em relação à chinesa. “Não estou preocupado com as alegações (dos EUA), estou preocupado com o poder que essas entidades exercem. Segurança é um problema, mas por causa de uma sociedade totalmente conectada, porque estamos dando às máquinas o controle de nossas vidas.” (M.F.C.)

NA CHINA, PESQUISAS SOBRE 6G JÁ COMEÇARAM

Em um dos 14 institutos e centros de pesquisa e desenvolvimento da Huawei pelo mundo, as pesquisas sobre o 6G (sucessor do 5G) já começaram, mesmo que as definições sobre a próxima geração da internet móvel ainda sejam bastante obscuras. A companhia mantém a localização do centro responsável por essas pesquisas em segredo. Os estudos sobre o 5G são realizados no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Xangai.

A quinta geração da internet móvel ainda não chegou ao consumidor na China, mas as operadoras chinesas já estão com as licenças prontas para comercializar o 5G, o que deve acontecer entre o final do ano e 2020. No Brasil, os leilões das frequências para o 5G estão previstas para o primeiro trimestre de 2020.

Operadora chinesa faz testes com o 5G no setor de energia
Operadora chinesa faz testes com o 5G no setor de energia | Foto: Mie Francine Chiba

O 5G não só vai aumentar a velocidade da internet, vai também impulsionar a adoção de novas tecnologias. Com uma maquete, a operadora China Mobile mostrou na área de exposição do Huawei Connect como o 5G deverá beneficiar as redes elétricas. Com a tecnologia, a leitura da energia poderá ser feito remotamente, a verificação dos fios da rede poderá ser feita por meio de drones e a manutenção por meio de robôs. Isso será possível porque o 5G não dependerá de cabos de fibra ótica e a cobertura será bem maior que a atualmente oferecida pelo 4G. (M.F.C.)

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