O brasileiro não tem o hábito de poupar e hesita pouco antes de assumir dívidas para adquirir um bem no crediário. Esse foi o perfil dos hábitos de consumo e poupança da população detectado pela pesquisa que o Ibope fez para a CNI. Foram ouvidas 2 mil pessoas, entre 7 e 13 de maio.
Dos entrevistados, 76% disseram que nunca poupam. A concentração de pessoas que não guardam dinheiro é maior nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde o percentual supera os 80%. Entre os que ganham até dois salários mínimos, 88% não fazem poupança.
‘‘É um dado preocupante’’, disse o presidente da CNI, senador Fernando Bezerra (PMDB-RN). Ele lembrou que a retomada dos investimentos no País se dará com a entrada de capitais externos e a utilização da poupança interna, tanto do setor público quanto do privado. ‘‘O setor público não poupa mesmo, é perdulário e historicamente gasta muito além do que arrecada. Por isso, precisamos mais de poupança privada’’.
A principal causa dessa alta incidência de pessoas que não poupam são os baixos salários. Segundo 75% dos entrevistados, não se guarda dinheiro porque não sobra salário. Outros 11% disseram que não poupam porque priorizam o consumo e 9%, porque o rendimento oferecido pelas cadernetas não compensa.
Em compensação, aumentou o número de pessoas que se disseram mais endividadas. Em março, 23% dos entrevistados haviam respondido que tinham mais dívidas do que três meses atrás. Em maio, a parcela dos mais endividados havia subido para 28%. A razão desse endividamento está no fato de que o crediário é a forma preferida de 56% das pessoas para adquirir bens de alto valor. A incidência maior é entre as mulheres (61%). A prática de poupar para depois comprar à vista só é adotada por 9% dos entrevistados.
A parcela de pessoas que nunca compram pelo crediário pouco varia conforme a renda. O hábito foi declarado por 34% dos entrevistados de mais alta renda e por 32% com renda mais baixa. A pesquisa não confirmou, entretanto, a impressão de vários analistas, de que os juros altos não inibem o uso do crediário. Mais da metade dos entrevistados (57%) declarou que leva em conta a diferença dos preços à vista e a prazo na hora de comprar.
As recentes medidas adotadas pelo governo para inibir o consumo tiveram efeito pequeno, segundo os entrevistados. Em março, 46% dos entrevistados haviam dito que não tinham deixado de comprar. Em maio, 43% deram a mesma resposta, evidenciando uma ligeira retração nas intenções de compra.

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