Política de cotas da China retém 400 mil toneladas e desafia exportação de carne bovina
Imposta por Pequim desde o início do mês, alíquota adicional no imposto de importação é mais um degrau protecionista do gigante asiático
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Imposta por Pequim desde o início do mês, alíquota adicional no imposto de importação é mais um degrau protecionista do gigante asiático
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

Da euforia à apreensão. Em três anos, os horizontes da Astra Foods se modificaram completamente. Em março de 2023, a única planta industrial da empresa familiar, localizada em Cruzeiro do Oeste, cidade a 28 quilômetros a oeste de Umuarama, viveu um momento de forte otimismo, impulsionado pelo reconhecimento do status sanitário do Paraná como área livre da febre aftosa e por um anúncio histórico. O frigorífico passaria a ser o primeiro e único frigorífico do estado a ter autorização para exportar para a China e para a Indonésia já naquela reabertura comercial.
As portas abertas pela segunda maior economia do mundo funcionaram como um convite à expansão. Na ocasião, o CEO da empresa, Jeremias Junior, projetou um crescimento de quase 40% no faturamento daquele ano, para mais de R$ 1,5 bilhão, com um salto de pouco menos de um quarto para 60% na fatia internacional da operação. Em 2025, o frigorífico informou que abateu 9,2 mil cabeças a mais que no ano anterior - 220,9 mil, no total.

No último dia do ano passado, veio a ducha de água fria, quando o governo chinês informou ao mundo que protegeria os frigoríficos locais do excesso de carne estrangeira no mercado e limitaria a compra de carne bovina até 2028, estipulando tetos anuais por país para a aplicação da alíquota básica de imposto, de 12%. O excedente do teto, informaram as autoridades chinesas, seria sobretaxado em mais 55%.
O segundo degrau da salvaguarda já está em vigor. A cota anual de 1,1 milhão de toneladas com alíquota convencional estipulada aos exportadores brasileiros foi atingida no dia 29 de setembro.
"Sabíamos que a cota não duraria o ano inteiro. Na verdade, com o aumento generalizado das produções para a China, nós antevimos o final da cota ainda em agosto. Por isso, paramos de exportar para a China no fim de junho para evitar a possibilidade de termos mercadoria chegando lá com 55% extra de tarifas”, informou o gerente de exportações da Astra, Diogo Oliveira, referindo-se aos 45 dias de intervalo entre o embarque e o desembarque entre os dois países.
O país asiático compra 48% de tudo o que o Brasil exporta do produto. De acordo com a Scot Consultoria, em setembro, o volume embarcado foi 35% menor em comparação com o mesmo mês do ano passado. A retração do mercado chinês foi de 94%. Sem o apetite do principal parceiro e com uma conjuntura de escassez em outro mercado importante, parte do fluxo seguiu para a América do Norte. Em setembro, os Estados Unidos absorveram quase um quarto do volume exportado, o melhor da história na relação bilateral. Foram mais de 44 mil toneladas de bovina in natura e 389% de crescimento no volume, incluindo a carne processada.
Ruim para todos
“O último semestre de 2026 está sendo muito difícil para todos os frigoríficos, todos acabaram por forçar férias coletivas e controlar os abates, a arroba não retraiu, como se esperava mesmo sem o mercado chinês, que é o principal comprador estrangeiro que o Brasil tem. Para agravar o quadro, a União Europeia também suspendeu as importações de carne bovina brasileira”, lembrou o gerente da Astra, acrescentando outro revés neste setembro difícil, quando os europeus suspenderam as compras por acusar o Brasil de um controle insuficiente e falta de envio de informações comprobatórias de conformidade sobre o uso de antimicrobianos (proibidos na Europa como promotores de crescimento ou de uso humano na pecuária).
“Vemos que o mesmo acontecerá em 2027 e 2028, pois a cota chinesa também estará em vigência. Vai ser um desafio controlar as contas. Aqui no Astra, estamos com redução de abate em 20% desde agosto e por consequência um encolhimento do quadro de colaboradores em nível semelhante. É ruim para todos”, afirma Oliveira.
Ele pondera que a carne bovina brasileira alocada na China opera predominantemente em um nicho industrial e altamente sensível a preço, competindo diretamente com o búfalo indiano — uma categoria mercadológica bem abaixo dos cortes fornecidos por concorrentes como Austrália, Argentina e Uruguai. Essa inserção em margens estreitas torna o produto brasileiro incapaz de absorver qualquer elevação tributária.
“A arroba segue batendo recordes históricos, mas não temos mais a mesma força comercial para escoar uma produção demasiada. Está sobrecarregando o mercado doméstico, mesmo com preços muito acima do normal. A carne bovina não trabalha com contratos, todas as vendas são feitas na modalidade chamada “spot”, que seria vendas individuais, de acordo com disponibilidade. A oscilação diárias dos custos faz com que preços mudem de hora em hora, tornando impossível um compromisso de entrega de longo prazo”, explica.
26 milhões de arrobas sem mercado
Doutor em Economia pela Universidade de Ohio e pós-doutor pela Universidade de Newcastle, o professor Maurício Vaz Lobo Bittencourt, coordenador do Neide (Núcleo de Economia Internacional e Desenvolvimento Econômico) da Universidade Federal do Paraná, calcula que 400 mil toneladas de carne ficaram sem mercado após a movimentação chinesa.
“O que acaba sendo um problema para os frigoríficos porque, com este volume excedente, o preço tende a cair. Há uma possibilidade de conseguir negociar com os outros países exportadores o repasse de parte da cota deles ao Brasil, apesar de que o governo chinês já sinalizou negativamente a esta proposta, o que pode mudar no futuro. Ou até a chancelaria abrir novos mercados a médio prazo. De toda forma, o empresariado do setor não tem muito controle sobre estas possíveis soluções. O que pode ser feito internamente é uma organização para produzir menos ou para escalonar a produção para não atingir a cota tão rápido, mas é algo muito difícil de fazer porque a competição é muito grande, com um número crescente de empresas exportando para a China porque nosso produto é de alta qualidade”.

Apenas um alvo entre tantos mercados
A economista Juliana Franco Afonso, professora de Economia da UniCesumar, acredita que o mercado brasileiro deve se preparar para uma nova realidade. “Vejo o regime de cotas como uma medida que deve ser tratada como estrutural no curto e médio prazo, e não simplesmente como uma barreira temporária que desaparecerá rapidamente”, afirma. "Portanto, a estratégia não deveria ser ‘China ou outros mercados’, mas ‘China e outros mercados. Há uma necessidade de reorganização industrial e comercial", avalia.

Sob a perspectiva da infraestrutura fabril, os docentes ressaltam que o parque industrial brasileiro possui perfil multiproduto e multimercado, o que afasta o risco de obsolescência física do maquinário. A flexibilidade industrial permite readequar cortes, especificações, embalagens e certificações sanitárias sem descarte de capital fixo. O problema central reside, portanto, na perda de rentabilidade e no aumento do custo fixo por unidade produzida.
Em relação aos criadores de gado, o analista do Deral (Departamento de Economia Rural) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento, o veterinário Thiago De Marchi, a sugestão é a cautela. “Quem tem a capacidade de manter o animal no pasto não precisa vender às pressas. Pode segurar o gado na fazenda por mais 30 dias. Os produtores que criam o animal no padrão exportação, o chamado boi china, podem adiar o abate e aproveitar a renovação da cota a partir de janeiro. É um atraso de receita e não um prejuízo catastrófico”, avalia.
Alerta Titanic
José Vitor Hidalgo, especialista em commodities, frisa a importância da gestão de risco e do planejamento estratégico diante das turbulências geopolíticas e mudanças tarifárias no comércio internacional que marcaram esta década. Há recomendações objetivas para manter a sustentabilidade operacional em momentos críticos, como decisões inesperadas de blocos ou países.
“Diante de um solavanco, a empresa deve agir com extrema rapidez e sinergia entre as áreas. Enquanto o comercial busca novos parceiros e mercados, o financeiro se debruça sobre a gestão do fluxo de caixa, das margens, do câmbio e das taxas de juros. Enquanto o departamento jurídico busca alternativas de mitigação de impostos e revisão contratual, a logística tenta ajustar prazos e custos de frente. É preciso ter múltiplos planos de contingência: A, B, C e D. Ter uma inteligência de mercado apurada e equipe capacitada para executar planos alternativos assim que o cenário mudar”, defende. “É como um navio, ele é pesado, virar leva tempo, por isso a manobra começa bem antes, caso contrário pode ser tarde demais”.
Parceiro com meta audaciosa
O professor Lobo Bittencourt tem um recado claro, que os frigoríficos brasileiros precisam entender para construir sua estratégia de longo prazo: a China tem um projeto de autossuficiência em proteína, com investimentos pesados na produção de carne bovina e suína.
Os cortes bovinos abastecem a classe média alta chinesa e são símbolo de prosperidade nas grandes metrópoles.
Entre 2014/2024, de acordo com documentos da Embrapa Gado de Corte, o consumo na China cresceu 10 vezes mais rápido que o resto do mundo, aumentando 78% no período.
O fenômeno chamou a atenção do Comitê Central do Partido Comunista Chinês que orientou o corpo técnico do Plano Quinquenal 2026-2030 a elevar em 10 pontos percentuais a participação da indústria local no abastecimento deste novo mercado. A meta é que até o último ano da década, os pecuaristas e frigoríficos chineses consigam fornecer 85% da demanda. A esperança para quem exporta é que um mercado aquecido tão gigantesco (com limites territoriais evidentes de expansão para a pecuária) dificulte o cumprimento de uma meta tão audaciosa.


