A Polícia Federal irá pedir à Justiça a quebra do sigilo telefônico e bancário dos ex-controladores dos bancos Marka e FonteCindam e de dirigentes do Banco Central. Pode ser pedida a prisão temporária para evitar que deixem o País. O governo adotou ontem iniciativas para tentar sair da defensiva na apuração do socorro do BC aos dois bancos.
A abertura de inquérito policial foi anunciada pelo ministro da Justiça, Renan Calheiros, por determinação do presidente Fernando Henrique Cardoso, que pediu um esclarecimento rápido do caso. No fim-de-semana, a revista ‘‘Veja’’ publicou reportagem segundo a qual testemunhas, sob anonimato, teriam afirmado que Salvatore Cacciola, dono do Marka, dizia receber informações privilegiadas de um funcionário do BC em troca de dinheiro.
Renan Calheiros disse que o pedido de quebra de sigilo atingirá ‘‘todas as pessoas envolvidas’’. Se necessário, a PF pedirá a prisão provisória dos envolvidos, declarou. O caso envolve Cacciola, Luiz Antônio Gonçalves (FonteCindam), o ex-presidente do BC, Francisco Lopes, atuais e ex-diretores da instituição e o economista Rubens Novaes, suposto intermediário entre o Marka e o BC. ‘‘O BC não pode ficar encoberto por essa névoa de suspeita e desconfiança’’, disse Calheiros.
Ele não descartou a possibilidade de o atual presidente do BC, Armínio Fraga, vir a ser também investigado. ‘‘Não há orientação no sentido de limitar as investigações’’, afirmou. Calheiros determinou que Cacciola fosse ouvido o mais rapidamente possível.
Questionado sobre por que somente ontem o governo reagiu às notícias sobre o socorro aos bancos, o ministro disse que pela primeira vez houve informações sobre suposta corrupção. ‘‘Até então não tinha havido nenhuma denúncia estabelecendo responsabilidade de funcionários públicos’’, justificou.
O Ministério Público Federal no Distrito Federal também irá pedir a quebra de sigilo telefônico de Cacciola e Novaes. Não se descarta também a quebra do sigilo de Francisco Lopes. Os responsáveis pelo inquérito do Ministério Público, Guilherme Schelb, Valquíria Quixadá e Luis Francisco Fernandes, querem comprovar, por meio dos registros telefônicos, se Cacciola e Novaes tinham contatos com funcionários do BC que lidavam com informações sobre o câmbio.
Os delegados da Polícia Federal do Rio passaram o dia de ontem tentando intimar o presidente do Banco Marka, Salvatore Alberto Cacciola, a depor. A PF só foi informada no final da tarde, por meio de nota divulgada à imprensa pelo banco, que Cacciola teria deixado o País na quinta-feira e só retornaria na próxima semana. Na nota, Cacciola afirma serem ‘‘fantasiosas, infundadas e irresponsáveis’’ as especulações de que o Marka teria informantes no BC.
A equipe da Delegacia Especial de Combate ao Crime Organizado e Inquérito Especial foi, no início da tarde, à casa de Cacciola, na Barra da Tijuca, e depois ao Banco Marka, no centro. Os delegados permaneceram no banco por 15 minutos, mas deixaram a instituição assim que foram informados que Cacciola estaria disposto a comparecer voluntariamente à Polícia Federal para prestar depoimento. Até às 19h, o executivo não apareceu.
O chefe da Delegacia da Polícia Federal do Rio, Eduardo da Matta, disse que a PF vai aguardar até hoje de manhã por uma informação oficial de Cacciola. Ele informou ainda que, se for preciso, a PF vai acionar a Interpol para conseguir localizar o executivo no exterior.

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