Porto Alegre O debate em torno da polêmica dos transgênicos não impediu que a comercialização da safra de soja seguisse seu curso normal no Rio Grande do Sul. Na última semana de junho, apenas 35% das 9,2 milhões de toneladas produzidas neste ano haviam sido vendidas. Na mesma época, no ano passado, eram 60%. Mas a explicação está no mercado e não na condição da semente. O grão está armazenado à espera de uma cotação melhor do que os atuais R$ 34 pela saca de 60 quilos.
O presidente da corretora Brasoja, Antônio Sartori, constatou que a transgenia não interferiu na compra e venda da soja. ''Nem a União Européia, nem os Estados Unidos e nem a Ásia fizeram exigências ou estão pagando menos, ou mais, pelo produto transgênico'', revela. Para o grão convencional, reconhece, há nichos de mercado em qualquer continente, ''assim como os restaurantes vegetarianos, que são minoria numa cidade''.
O gerente comercial da Cooperativa Tritícola Santa Rosa, Nereu Rohleder, confirma o raciocínio de Sartori ao dizer que a venda do produto seguiu seu curso normal. ''Ninguém pede nada porque todos sabem o que está acontecendo'', salienta o presidente da Cooperativa Agropecuária Alto Uruguai (Cotrimaio), Antônio Wunsch, referindo-se aos clientes comuns, que aceitam a soja transgênica.
Apesar de também oferecer soja misturada, a Cotrimaio é uma das poucas cooperativas gaúchas que investem na segregação dos grãos não transgênicos para atender compradores que exigem soja convencional, como a Bunge Alimentos. Graças ao rastreamento, a cooperativa vai entrega 63% da sua produção de 3 milhões de sacas com certificação de que o grão não é transgênico.
O prêmio pago aos produtores de soja convencional é de 4% sobre a cotação do mercado. ''É um ganho menor do que os 10% a 20% que os plantadores de soja transgênica conseguem com produtividade e economia de herbicidas'', compara Sartori. Mas nos minifúndios de Três de Maio e outros 17 municípios com associados à Cotrimaio, Wunsch vê vantagens na opção pela soja convencional porque em pequenas propriedades é possível controlar o inço com trabalho manual.
Os produtores só estão em condições de especular porque conseguiram saldar suas dívidas no início da colheita. Agora, seguram a soja na expectativa de que o preço melhore ainda mais ou algum eventual avanço da cotação do dólar, embora saibam que as condições são diferentes. Em novembro de 2002, com silos quase vazios e a moeda norte-americana próxima dos R$ 3,6 chegaram a ganhar R$ 47 por saca.
Neste ano o jogo não é o mesmo. Há cerca de 6 milhões de toneladas armazenadas no Rio Grande do Sul e, nesta situação, a concorrência da safra norte-americana, que entra no mercado internacional em outubro, tende a derrubar os preços. A colheita, encerrada no início de maio, foi de sonhos, com crescimento de 62,7% na produção e de 52,7% na produtividade, conforme dados da Emater/RS.

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