São Paulo - Numa sociedade consumista como a que vivemos, o poder de compra do consumidor é uma arma poderosa de protesto. Nos últimos dias, declarações mundiais, principalmente de países europeus, deram uma nova cara para a reivindicação contra a ofensiva militar dos Estados Unidos ao Iraque. Sem violência, pessoas de todas as nacionalidades adotaram uma nova forma de expressar contrariedade à guerra: o boicote aos produtos americanos.

O boicote é geralmente liderado por uma organização ou grupo de pessoas visando não comprar determinado produto, ou mercadorias de uma companhia específica, com o objetivo de exercer pressão econômica. Trata-se de uma estratégia legítima, que deve ser utilizada pelo consumidor em situações extremas. Nessa situação específica, pode ser a única forma de pressão realmente eficiente diante de uma superpotência com a força dos Estados Unidos. No Brasil, o boicote ainda é pouco utilizado, mas já tivemos exemplos bem-sucedidos. Em 1979, por exemplo, o movimento das donas de casa promoveu um boicote à carne, devido aos altos preços do produto. A iniciativa conseguiu uma redução de 20% no valor


O próprio movimento dos consumidores originou-se, em 1891, a partir de uma campanha liderada também por donas de casa americanas, que criou uma ''lista branca'' (uma versão às avessas da lista de reclamações do Procon) para orientar o consumo da população. A iniciativa visava privilegiar os fornecedores e as empresas que respeitassem os direitos trabalhistas.


Em todo o mundo, essa estratégia também alcançou resultados positivos. Na década de 50, os negros americanos dos estados do Sul, como Alabama, Georgia e Mississipi, apenas podiam sentar nos bancos traseiros dos ônibus. Contrariando a imposição, uma senhora negra sentou-se num banco da frente, e foi agredida e expulsa do ônibus. No domingo seguinte, o reverendo Martin Luther King iniciou um movimento de boicote aos ônibus, que obteve total adesão dos negros. Passados 11 meses, nos quais a população negra não andou de ônibus, os políticos, pressionados pelos proprietários das empresas, votaram uma lei que proibia a discriminação racial nos meios de transporte

Símbolo maior da resistência pacífica, o líder Mahatma Gandhi mobilizou o povo indiano inúmeras vezes. Na mais conhecida, intitulada Marcha para o Mar, fez com que milhares de indianos caminhassem 320 quilômetros em direção ao mar, a fim de extrair o sal de que precisavam, num boicote ao sal monopolizado pelos colonizadores ingleses. Gandhi foi preso, mas conseguiu a liberação completa do sal e, tempos depois, a independência da Índia


Seguindo o exemplo do líder indiano, essa atitude tem promissoras chances de sucesso, além de ser uma oportunidade de revermos nossos padrões de consumo. Em vez de comprar produtos americanos, ou dos países que apóiam a guerra, o consumidor pode procurar pelos nacionais, incentivando a indústria e o comércio locais, por exemplo. Mas ainda na trilha dos passos de Gandhi, o boicote não é compatível com nenhum tipo de violência contra pessoas ou empresas. Diferentemente, é uma forma de resistência pacífica, assim como o ideal eternizado pelo líder indiano durante a luta pela independência de seu país.


Quem quiser participar, portanto, deve avaliar quais os produtos presentes em sua lista de compra que podem ser substituídos por similares nacionais, ou de países contrários à ofensiva de Bush. O bom senso deve ser o principal parâmetro para o boicote. Outra forma de colaborar é espalhando essa idéia, convidando amigos e familiares para se juntarem à iniciativa.


O Idec, que há mais de 15 anos luta pelos direitos do consumidor, pela preservação do meio ambiente e pelo consumo sustentável, apóia o boicote. Mas sempre de forma pacífica. Não é uma questão de ser favorável ao regime político iraquiano, mas uma maneira genuína de manifestação contra uma invasão militar liderada pelo governo Bush, que ignorou as incontáveis vozes que se opunham à guerra, inclusive do órgão defensor dos direitos humanos internacionais, a ONU. O Idec, portanto, está ao lado da paz


- O IDEC é uma associação independente e sem fins lucrativos, que há 15 anos defende os direitos dos consumidores. Informações: (0xx11) 3874-2152 / www.idec.org.br.

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