A pobreza aumentou na América Latina nos últimos 15 anos, demonstrando que as reformas econômicas postas em prática, embora necessárias, são em geral insuficientes para criar condições que permitam os mais pobres melhorar seu nível de vida, assinala relatório do Banco Mundial.
O documento conclui que é possível reduzir substancialmente a pobreza no mundo, mas a conquista dessa meta exige um enfoque mais integral que aborde diretamente as necessidades dos pobres em três áreas: oportunidades, mais poder, e segurança, disse a economista argentina Nora Lustig, que dirigiu o estudo.
O relatório se afasta das receitas convencionais em alguns aspectos, e especialmente no tema da liberação dos fluxos de capitais, recomendada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Recomenda-se ‘‘cautela, com a velocidade da liberalização da conta de capital’’, disse Nicholas Stern, economista-chefe do Banco Mundial.
O relatório, consagrado exclusivamente ao tema ‘‘Luta contra a Pobreza’’, levou dois anos de preparo e abrange consultas com centenas de especialistas, universidades, ONGs e empresários. Um estudo anterior, ‘‘Vozes dos Pobres’’, recolheu opiniões de 60.000 homens e mulheres pobres de 60 países.
Em números, o relatório estabelece que 2,8 bilhões de pessoas, quase a metade da população mundial, vivem com uma renda inferior a dois dólares por dia, e 1,2 bilhão com menos de um dólar por dia.
Africa e Ásia são os continentes mais pobres, mas sua situação tende a melhorar, enquanto na América Latina a porcentagem se mantém em torno de 15,6% da população, mas o número absoluto de indigentes aumentou de 63,7 milhões de pessoas em 1987 a 78,2 milhões em 1998, segundo o estudo.
No índice de pobreza relativa, que leva em conta a brecha entre ricos e pobres, América Latina está inclusive pior do que África: em 1998, 51,4% da população viviam com menos da terça parte do consumo nacional médio em 1993, comparado com 50,5% na África negra, 40,2% no sul da Ásia e 32,1% na média mundial.
A economista disse que parte do problema foi causada pelas reformas mal aplicadas ou interrompidas, que entretanto fizeram parte do processo de aprendizagem. ‘‘Aprendemos muito com essas experiências’’, indicou, afirmando que, em todo caso, ‘‘sem as reformas, América Latina provavelmente estaria ainda muito pior’’.
As três áreas de ação identificadas no relatório são definidas assim: – Oportunidades: expandir as oportunidades estimulando o crescimento econômico, fazendo com que os mercados trabalhem mais a favor dos pobres, e trabalhando para sua inclusão, particularmente aumentando seus ativos, tais como terra e educação.
Mais poder: fortalecer a capacidade dos pobres de participar nas decisões que afetam suas vidas, e eliminar discriminações baseadas em gênero, raça, origem étnica e estatus social. Segurança: reduzir a vulnerabilidade dos pobres às doenças, crises econômicas, perdas de safras, desemprego, desastres naturais e violência, e ajudá-los quando ocorrerem.
‘‘Os avanços nestas áreas são complementares. Cada uma é importante por si mesma, e cada uma reforça a outra. Esperamos que este roteiro ajude os países a desenharem suas próprias estratégias de redução da pobreza de acordo com suas próprias circunstâncias. Não há uma receita universal’’, disse Norma Lustig. O relatório ressalta que a pobreza persiste apesar de as condições de vida terem melhorado mais no último século do que em todo o resto da história. Mas a distribuição desses lucros é muito desigual. A renda média nos 20 países mais ricos é 37 vezes maior que a dos 20 países mais pobres, uma brecha que dobrou nos últimos 40 anos.
As perspectivas são preocupantes, porque nos próximos 25 anos se prevê que a população mundial vai aumentar em mais 2 bilhões de pessoas, e 97% delas vão nascer em países em desenvolvimento. O que dificultará conquistar a meta internacional de reduzir pela metade, para 2015, a proporção de gente na extrema pobreza. Uma anotação importante do relatório é que a democracia e a liberdade de imprensa reduzem a vulnerabilidade: no século 20, nenhum país democrático e com imprensa livre chegou a sofrer de fome.

mockup