A pobreza afeta mais fortemente a população rural do que a urbana. Estudo desenvolvido por pesquisadores da Unicamp revela que 65,1% das pessoas que vivem no campo são consideradas pobres, contra 29,2% dos que vivem nas cidades. Além disso, no meio rural 2,8 milhões de pessoas (9,2% do total) vivem em estado de extrema pobreza, enquanto na área urbana esta situação seria insignificante. A pesquisa mostra ainda que do total de domicílios brasileiros, 34,8% apresentam algum grau de insegurança alimentar, onde residem 72 milhões de pessoas.
A pesquisa ''Pobreza, insegurança alimentar e pluriatividade no Brasil'' foi apresentada pelo docente da Unicamp Rodolfo Hoffmann, ontem, no 45º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (Sober), realizado no campus da Universidade Estadual de Londrina. O trabalho foi desenvolvido em conjunto com a docente Angela Kageyama. No levantamento, a pobreza foi definida a partir de uma combinação entre renda e ausência de condições básicas como falta de luz elétrica, água encanada e sanitário dentro do domicílio. A renda ficou definida em R$ 150 per capita.
Foram utilizados dados de 2004 da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (PNAD), do IBGE. Naquele ano, mais de 2,3 milhões de pessoas foram consideradas extremamente pobres com insegurança alimentar, das quais 695 mil tinham insegurança alimentar grave (que ficaram mais de um dia sem comer por falta de recursos financeiros). ''Essa população, com renda abaixo da linha de pobreza, sem infra-estrutura domiciliar mínima e com insegurança alimentar representa o núcleo da miséria no Brasil'', afirmou Hoffmann.
Rendimentos - O rendimento rural representa, em média, 42,2% do rendimento urbano. A Região Nordeste tem o menor valor do salário entre as regiões e equivale a 57,4% do rendimento médio do País. A população da Região Sul tem a segunda maior média salarial do País com R$ 524,34 per capita por domicílio, perdendo para o Estado de São Paulo, que tem média de R$ 558,89 por pessoa. No geral, os rendimentos médios rural e urbano apresentam grande diferença: no campo a média de salários per capita é de R$ 196,57, enquanto nas cidades, o volume é de R$ 465,56.
A pobreza, em geral, também é maior no Nordeste, com 63,7% da população nesta situação. Deste total, 4,4% estão em condições de extrema pobreza. No Sul, 19,8% das pessoas são consideradas pobres. Mais uma vez, São Paulo apresenta o menor índice com 18,1% de pessoas com baixa renda. Já a insegurança alimentar afeta mais de 50% da população nas regiões Norte e Nordeste e menos de 30% no Estado de São Paulo e na Região Sul. Mais de 33% dos moradores do Norte e Nordeste estão em estado de insegurança alimentar moderada ou grave, enquanto em São Paulo e no Sul essa proporção é de 12%.
Na avaliação de Hoffmann, a expansão dos programas sociais do governo federal ajudam a combater a extrema pobreza. ''O governo Lula tem esse mérito porque houve uma expansão forte destes programas, que têm sido fundamentais para a segurança alimentar'', disse, acrescentando que sequer é eleitor do atual presidente. Ele ressalvou que esses programas têm efeito somente a curto prazo e que o ideal seria investir em geração de empregos. ''Mesmo o valor baixo (em média R$ 95 para famílias com três crianças) faz diferença para famílias extremamente pobres'', comentou.

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