O mais recente mapeamento realizado pelo Instituto Data Favela contabilizou 12,3 mil comunidades constituídas no Brasil. São mais de 6,6 milhões de domicílios onde vivem 17 milhões de pessoas. Se todas as favelas do país se unissem para formar um estado, seria a terceira maior unidade da federação, superando o número de habitantes do Rio de Janeiro e ficando atrás somente de São Paulo e de Minas Gerais. Com uma população tão expressiva, as favelas movimentam mais de R$ 300 bilhões por ano com renda própria, volume que supera o PIB (Produto Interno Bruto) de alguns países da América do Sul, como a Bolívia e o Paraguai.

Fora das periferias, a tendência é só enxergar as mazelas existentes nesses territórios, mas os números apresentados pelo Data Favela mostram a relevância desse público para a economia nacional, com um potencial de consumo gigantesco. Ignorado ou menosprezado pelas grandes empresas, aos poucos esse mercado vem sendo explorado por empreendedores de dentro das próprias comunidades. E eles já entenderam a importância de aplicar os conceitos da economia circular para gerar riqueza e evitar que o dinheiro vá para o “asfalto”.

Em Curitiba, estima-se que as oito maiores favelas movimentem em torno de R$ 24 bilhões ao ano. De olho nesse mercado, uma iniciativa se destaca. Uma plataforma foi criada para reunir vendedores e compradores e facilitar o acesso dos moradores das favelas aos produtos e serviços ofertados por pessoas que residem nas comunidades. “Se a gente estudar o processo de capitalismo, das grandes empresas, vai ver que elas têm finalidade de enriquecimento de uma só família ou grupo. Quando a gente cria modelos de riqueza compartilhada e subdividida, o dinheiro não acumula na mão de uma só pessoa”, destacou o sócio-fundador da plataforma e ativista social José Antônio Campos Jardim.

A Viva Marketplace começou em 2025, na capital paranaense, e hoje tem cerca de dez negócios cadastrados, em vários segmentos. Outros dez devem ser incluídos em breve. A intenção é ampliar cada vez mais o alcance da plataforma, chegando a outros estados e criando uma rede de conexão entre as favelas de todo o país.

“É uma forma de democratizar o acesso. As grandes plataformas que têm como fim o lucro não contemplam o indivíduo e, nas periferias, muitos trabalham no mercado informal. A Viva visa a escalar esse indivíduo, ajudá-lo a ter a empresa. Ao democratizar o processo, o empreendedor sai da invisibilidade e gera riquezas”, disse Jardim. A plataforma contabiliza, atualmente, sete mil acessos mensais, com um fluxo de comércio que já ultrapassa os R$ 40 mil por mês. A pretensão é chegar aos R$ 100 mil mensais até o final deste ano ou R$ 1,2 milhão ao ano.

A OSC (Organização da Sociedade Civil) Instituto Supera, fundada há seis anos, mantém uma fábrica de costura e um ateliê gastronômico e faz os ajustes finais para que os itens comecem a ser comercializados na plataforma. O espaço de qualificação profissional e geração de renda para os moradores da periferia da capital em situação de vulnerabilidade social se sustenta a partir das vendas. Da fábrica de costura saem mochilas, bolsas, nécessaires, sacolas e outros acessórios que têm como principal matéria-prima resíduos da indústria automobilística, sobras de tecidos utilizados em projetos de decoração de interiores e banners publicitários. No ateliê, são feitos pães e doces. “Atendemos todas as comunidades, um público sem acesso à economia circular e ao emprego decente. Nosso posicionamento foi nos tornarmos fornecedores de brindes sustentáveis para empresas comprometidas com a pauta ESG (práticas empresariais voltadas para a sustentabilidade ambiental”, explicou a presidente do instituto, Andréa Koppe.

No ano passado, o Instituto Supera comercializou R$ 1 milhão e desse total, R$ 400 mil foram revertidos em renda para as 50 famílias mantidas pelas atividades do ateliê gastronômico e da fábrica de brindes. “Eles ganham uma bolsa para aprender e depois, viram produtores certificados e trabalham por prestação de serviços. Ganham por produção”, disse Koppe.

O instituto já colocou no mercado 20 mil itens e no processo produtivo reaproveitou 2,8 mil quilos de material. “A própria comunidade consome, mas é um mecanismo que a gente precisa melhorar. Como somos uma instituição social, os processos de venda não são muito estruturados. Nós vendemos, apresentamos nossos produtos em feiras, temos loja de fábrica, mas nosso ‘calcanhar de Aquiles’ é marketing e vendas. Nunca sobra verba para investir em marketing. É um serviço caro e a gente mesmo assume esses papeis, mas nossa fragilidade está no processo de venda”, reconheceu a presidente da OSC.

Para inserir a produção nas plataformas convencionais de vendas, como o Mercado Livre, os custos subiriam muito, os lucros seriam reduzidos e o negócio seria inviabilizado, avaliou Koppe. No marketplace direcionado especificamente para a produção das comunidades o custo de manutenção do espaço virtual é muito mais em conta. “Nossa margem de lucro é baixíssima e uma plataforma (convencional) cobra 30%, 40% de comissão. Na Viva, vamos conseguir alavancar as vendas e escalar os produtos de forma acessível, entendendo a natureza da nossa atividade. No final, o preço fica competitivo em relação ao mercado”, comparou.

“Se pegar todas as comunidades periféricas que compõem o que a gente chama de favela, tem uma parte grande da população lá e tem um grande potencial de pessoas empreendedoras. Tem para quem vender e tem quem compra. Se a gente conseguir unir quem faz e vender, não vender para o rico, valoriza o poder econômico daquela comunidade”, disse Koppe. Com o impulso previsto com a inserção dos produtos na plataforma, a expectativa para os próximos anos é pelo menos dobrar o faturamento e o público assistido pelo instituto, chegando a cem pessoas. “Com o faturamento de R$ 1 milhão que temos hoje, não pagamos todas as nossas despesas. Ainda dependemos de doações de equipamentos, patrocínio. Queria depender totalmente das vendas.”

A startup idealizada por Juliano Santos não surgiu dentro da favela, mas foi criada a partir de uma demanda originada da escassez de políticas públicas para a população periférica. A partir de dados estatísticos que apontam que a cada cinco segundos uma pessoa fica cega no mundo e em razão da dificuldade de acesso a oftalmologistas, o empresário criou o Adam Robô. O dispositivo realiza testes de acuidade visual que detectam problemas de visão em menos de dois minutos. “Oitenta por cento dos casos de cegueira poderiam ser evitados. O robô atua em três pilares: inovação tecnológica, acessibilidade e simplicidade de uso.”

Imagem ilustrativa da imagem Plataforma de vendas impulsiona comércio na periferia
| Foto: Divulgação

Santos lembrou que os grandes centros têm escassez de médicos especialistas e em algumas regiões esse atendimento é inexistente. Com o robô, uma pessoa é habilitada após passar por um período de formação e recebe o aval para operar o robô, que pode ser comprado, alugado ou contratado para prestar o serviço. “Um teste de acuidade visual custa, em média, entre R$ 30 e R$ 60 e um oftalmologista atende uma média diária de 12 pacientes. Com o robô, a gente atende uma média diária de 200 pessoas e o preço de cada exame pode cair para menos de R$ 10. A gente não dá o diagnóstico, mas detecta problemas de visão”, ressaltou o empresário que também se prepara para colocar o robô na plataforma de comércio virtual. Com os lucros do negócio, a empresa cumpre sua função social, com a oferta de alimentos, brinquedos, óculos, cirurgias e consultas às comunidades periféricas.

“Não é só o fato de levar uma solução nova, é conseguir fazer clínicas populares nas comunidades, fazendo uma sociedade ou abrindo uma microfranquia. Mas o importante é que o dinheiro fique ali dentro”, disse Santos. Ele prefere não revelar o quanto a empresa faturou em 2025, mas com a ajuda da plataforma, projeta um crescimento de 10% para este ano.

Empreendedorismo na favela esbarra em racismo territorial

Quando o mercado de trabalho formal fecha as portas para os moradores das periferias, seja por falta de qualificação técnica ou por preconceito geográfico, a alternativa passa a ser a criação do próprio negócio. Venda de marmitas, produtos de panificação e confeitaria, barbearias, salões de beleza e comércios voltados a atender as necessidades da própria comunidade são alguns exemplos de atividades que proliferam nas favelas. Com CNPJ constituído ou mesmo na informalidade, esses empreendedores atendem uma demanda que as grandes empresas, localizadas “no asfalto”, ignoram ou menosprezam.

Mas na jornada empreendedora há uma enorme barreira a ser superada, o racismo territorial. Entre as empresas surgidas nas periferias, ainda é comum que grande parte delas tenha entre o seu público consumidor os moradores da própria comunidade. “Já é comprovado que quanto mais riqueza eu levo para a favela, mais muda a realidade dela e há uma mudança em todos os aspectos, para todos os cidadãos”, destacou o ativista social José Antônio Campos Jardim.

Ele salientou que embora o maior colégio eleitoral brasileiro esteja nas favelas, a periferia não ocupa os espaços de poder e carece de políticas públicas para fomentar a economia nesses territórios, gerando renda e dignidade para a sua população. “A gente entende que a dignidade vem através do recurso financeiro.”

E entre as grandes empresas, o obstáculo é fazê-las enxergar o enorme poder de compra dos consumidores das favelas. “Há um desprezo econômico, como se não tivesse valor, o poder de compra dos menos favorecidos. Mas eles trabalham, têm o próprio dinheiro e compram bem. Há um consumo grande dentro das comunidades. Eu vejo isso como um erro estratégico de muitas marcas”, analisou a presidente do Instituto Supera, Andréa Koppe. “Quando a gente vai por um carimbo, tem que ser um carimbo de orgulho, não de segregação, e encontrar consumidores fora da favela que queiram fortalecer isso.”

Koppe relata as cobranças que recaem frequentemente sobre os produtos feitos nas comunidades, em uma comprovação do racismo territorial. “Nossos negócios têm muitos desafios. (Os compradores) querem ter certeza, o nosso produto tem que ser melhor para provar seu valor. Tem que ser mais barato do que o feito em outros locais. A gente permeia muitos caminhos e tem que lidar com muito preconceito. Muita gente não diz com todas as letras, mas no discurso a gente percebe que acha o produto ‘muito caro para ser de onde vem’. A economia solidária e a economia circular são capazes de romper essa barreira que separa o asfalto das comunidades.”(S.S.)

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