Plano de safra é tímido e juros continuam altos
Plano de safra é tímido e juros continuam altos
ArquivoPessimistaAntônio de Salvo, presidente da CNA: plano sem ambiçãoMariângela Herédia
Agência Estado
O presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Antônio Ernesto de Salvo, considerou pouco ousado o Plano de Safra anunciado pelo governo. Apesar do aumento de recursos do crédito rural e da redução das taxas cobradas nos financiamentos, ele denuncia que, na prática, houve aumento do juro real pago pelo agricultor. Segundo Salvo, a inflação este ano deve ficar em cerca de 4% e, para se manter a taxa real cobrada na safra passada, os juros dos financiamentos agrícolas deveriam ter sido fixados em 6% para os produtores médios e grandes e 3% para os pequenos.
O presidente da CNA afirma que a falta de ousadia do plano agrícola do governo está na ausência de estratégias para que o setor produtivo nacional possa ser competitivo frente aos outros países, especialmente em relação à vizinha Argentina. O presidente da CNA garante que o setor agrícola tem potencial para levar o País a atingir a meta de ampliar de US$ 18,8 bilhões para US$ 45 bilhões as exportações agropecuárias em cinco anos, mas, para que isto aconteça, é necessário corrigir os rumos da política agrícola.
Na entrevista que concedeu à Agência Estado, Antônio de Salvo critica a atuação do governo de intervir no mercado quando os preços dos produtos estão altos e sugere que os consumidores mudem seus hábitos alimentares. O produtor precisa ganhar dinheiro e o consumidor deve trocar o arroz com feijão por frango, que é muito mais nutritivo e tem mais destaque neste governo, sugere o presidente da CNA.
A seguir os principais trechos da entrevista concedida à Agência Estado:
Como o setor produtivo pode contribuir com a meta agrícola de ampliar as exportações de US$ 18,8 bilhões para US$ 45 bilhões em 2002?
Antônio de Salvo - A nossa parte é de fácil solução. O produtor precisa de renda, de ter bons preços para fazer investimentos e de políticas públicas, principalmente na parte de infra-estrutura, e de um posicionamento correto da política agrícola. Esse negócio de falar que não tem política agrícola, não é verdade. Tem. Só que é ruim demais e muito mutável. Veja o caso recente do arroz e do feijão. O governo baixou a alíquota para a importação do arroz e se tivesse feijão no mercado teria comprado. O governo ainda não aprendeu a conviver com a variação de preços de commodities. A característica da commodity, em relação ao produto industrial, é que ela é altamente volátil. Na mesma hora em que o café está a R$ 200 o saco, cai para R$ 50, R$ 60. Então é preciso que uma política agrícola seja definida e considere que há horas em que o preço do produto sobe e o consumidor tem de bancar essa diferença, ou trocar de produto. O de alta renda não troca, mas isso é fruto da injustiça social.
O senhor considera incorreta a política do governo de intervir no mercado para garantir o abastecimento?
Antônio de Salvo - O agricultor é pobre se comparado à sociedade. É certo que há agricultores e pecuaristas ricos. Mas a agricultura é pobre, tem uma renda menor. No momento em que os preços estão baixos o governo é lento para usar o instrumento de garantia de preços, de formar estoques e normalmente o agricultor perde muito. Mas na hora que o preço está bom o governo importa, baixa as alíquotas. Com isso se cria uma situação de constrangimento, que tem como pano de fundo a necessidade social de não deixar o preço dos alimentos aumentar. Os mais primários acham que isso está certo, mas em qualquer lugar do mundo se o feijão triplicar de preço e eu for pobre eu não como feijão. Feijão não é remédio, não é hospital, não é parto que com nove meses nasce, então pode esperar.
O senhor acha então que as medidas adotadas pelo governo não eram necessárias?
Antônio de Salvo - Certamente não. O produtor precisa ganhar dinheiro e o consumidor deve trocar o arroz com feijão por frango, que é muito mais nutritivo e tem mais destaque neste governo. Quem continua comendo feijão é quem tem poder aquisitivo, quem pode pagar três vezes mais. A cesta básica para essa pessoa significa 5% de sua renda e não faz diferença nenhuma. Mas na justificativa de que o pobre não pode ter arroz com feijão, o País importa.
O que é necessário mudar na política agrícola para que se possa atender ao mercado interno e, ao mesmo tempo, garantir exportações?
Antônio de Salvo - No âmbito do potencial brasileiro não há o que discutir. Temos tecnologia e capacidade econômica para atingir a meta de exportar US$ 45 bilhões de produtos agropecuários em cinco anos. Mas é preciso robustecer a política agrícola e torná-la mais correta que a praticada atualmente, estabelecendo regras mais estáveis e maior volume de recursos para investimento para atender ao setor primário. No meu extrato do Banco do Brasil, por exemplo, tem limite de crédito para financiamento de automóvel. Eu sou fazendeiro e queria saber qual o limite para comprar um trator.
E o mercado externo?
Antônio de Salvo - Do ponto de vista do setor externo, o obstáculo é a regra internacional difícil de ser rompida. Ninguém entra neste campo achando que tira de letra porque não tira não. Existem regras desleais de comércio e nenhum governo do primeiro mundo vai abdicar do direito de defender seus produtores para satisfazer a ética do comércio internacional. Não acredito que isso seja de fácil solução. A solução é gradativa e precisa da firmeza de países como o Brasil, que tem ao lado de um alto poder de exportar uma grande necessidade de importar. No mundo de hoje ninguém exportará US$ 45 bilhões se também não se dispuser a importar mais.
O plano de safra anunciado recentemente é bom?
Antônia de Salvo - O plano de safra brasileiro é como uma composição de aluno de primeiro grau, certinho, ajeitadinho, mas sem ousadia. É preciso dar mais competitividade ao nosso produto, o que passa obrigatoriamente por mais crédito. Também é necessário buscar estratégias de mercado, para competir com outros países, por exemplo a Argentina, que está sendo mais competitiva. Enquanto estamos patinando numa produção de cerca de 80 milhões de toneladas de grãos, a Argentina cresceu 24% na última safra atingindo uma produção recorde de 65 milhões de toneladas. A Argentina pode comprometer nossas trocas comerciais. A competitividade da indústria agrícola argentina vai se tornar cada vez mais um vencedor na competição conosco, pois quem produz mais barato produz melhor. Daqui a pouco o arroz, feijão e tudo o que quisermos pode vir da Argentina.
Qual o segredo deles?
Antônio de Salvo - O principal segredo deles está na própria estrutura. É um país historicamente voltado para o exterior. A economia argentina é feita à base de uma economia agrícola de exportação. Eles têm know how e simpatia da opinião pública para gerar cada vez mais alimentos e uma capacidade de importação que melhora a vida de todo mundo. Nunca vamos ser a Argentina, porque temos um mercado interno sete vezes maior que o deles, com 160 milhões de consumidores. Nós somos é cobiçados por eles, somos a China da Argentina, com a vantagem de não existir um oceano pacífico entre nós.
A redução das taxas de juros nos financiamentos pode ajudar o setor produtivo nacional?
Antônio de Salvo - O número pouco importa. O que nós defendemos é uma harmonia entre a taxa real de juros e a inflação. E isto não ocorreu. Na safra passada, tivemos uma taxa de 9,5% para médios e grandes produtores e de 6,5% para os pequenos, numa inflação de 7%. Este ano, com uma inflação prevista de 3,5% a 4%, para manter a taxa real os juros deveriam ter sido fixados em 6% para os produtores médios e grandes e 3% para os pequenos.





