Plano de demissão leva 'terror' a Copel
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de maio de 2000
Benê Bianchi De Londrina 
O plano batizado de Ajuste Seletivo instituído pela Companhia Paranaense de Energia (Copel) este mês, associado à notícia que a Folha divulgou no dia 4 de maio de que a Eletrobrás comprará as ações da companhia em poder do governo, instituiu um clima de terror entre os funcionários. O medo da demissão sem justa causa tomou conta da grande maioria dos contratados, que reclama da falta de informações e transparência no processo.
O receio é tanto que a Folha tinha marcado um encontro com um grupo de funcionários mas apenas dois compareceram. Muitos disseram que viriam, mas ficaram com medo de serem descobertos, disse um deles, preferindo o anonimato. Na nossa visão, as gerências querem limpar o quadro para mostrar poder, diz ele, referindo-se às demissões. Convicto de que o enxugamento ocorre para preparar a empresa para a privatização, ele e um colega de trabalho reclamam das atuais condições de trabalho.
Segundo eles, as equipes de manutenção foram reduzidas e a empresa tem pouco material no almoxarifado. Acho que não existem 300 lâmpadas no estoque, diz um deles. A redução das equipes de trabalho, afirmaram, já pôde ser sentida após uma tempestade que atingiu Londrina na última semana. Numa situação como essa, resolveríamos todos os problemas na mesma noite. Só que desta vez trabalhamos dois dias, porque não temos veículos, equipamentos, materiais e pessoal suficientes, afirma.
Os funcionários relatam que as seis equipes de manutenção eram formadas por seis pessoas, incluindo um encarregado. Hoje, são duas equipes com três pessoas e não há encarregado. No setor de emergência, trabalhavam duas pessoas. Hoje é apenas uma. Também relatam que as agências de Irerê e Guaravera foram fechadas, assim como foram centralizadas na Rua Chile as equipes que antes trabalhavam em regiões estratégicas da cidade, para agilizar o atendimento.
A redução de pessoas, segundo os funcionários, pode colocar em risco a vida dos moradores. Como exemplo, eles citam o caso de queda de um cabo energizado, que pode ficar no chão por um período longo de tempo, expondo as pessoas ao perigo de serem eletrocutadas.
Dentro da empresa, afirmam os funcionários, há muita pressão tanto psicológica quanto verbal. As pessoas mal conversam. Está triste trabalhar lá. Antes trabalhávamos com alegria, vestíamos a camisa da empresa. Hoje, vestimos a camisa por obrigação, diz um dos entrevistados.
O Sindicato dos Eletricitários endossa a afirmação dos funcionários e diz que o clima de medo vivido na Copel permite classificar o plano de ajuste como sendo de demissão indicada. Não existem regras claras para as demissões. Eles não estão poupando nem mesmo as pessoas com mais de 20 anos de casa. O funcionário que hoje é chamado para a sala da gerência treme, comenta Renê Morato, presidente da entidade.
Na última quinta-feira, Morato fez duas rescisões de trabalho, em Apucarana. Uma delas foi a de Ivone Zanardo Ally, que trabalhava há 21 anos na empresa. Ivone relata que foi chamada na sala da gerência e informada que a empresa não precisava mais de seus serviços.
No outro dia cheguei para trabalhar e ao tentar acessar minha máquina constava que eu era funcionária demitida, conta ela, que trabalhava no setor de faturamento. Ivone reconhece que teve problemas com a empresa, tendo sido suspensa após pedir a uma amiga para bater seu cartão e ir embora mais cedo. Acontece que fiz isso porque o clima lá dentro estava insuportável. Quando voltei das minhas férias, há pouco mais de um mês, tinham colocado uma outra pessoa no meu lugar e me deixaram, até ser demitida, sem nenhuma função, reclama.
O Sindicato também denuncia que, das verbas repassadas ao funcionário demitido, em forma de incentivo, é descontado o valor da multa de 40% que a empresa paga ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) no caso de demissões sem justa causa. Com isso muitos funcionários podem sair da empresa, na prática, sem incentivo algum.
Num exemplo hipotético de um funcionário com salário de R$ 100,00 e com 20 anos de trabalho na Copel, o plano prevê o pagamento de 0,8 vezes o valor do salário por cada ano de trabalho, até 10 anos, somando R$ 800,00. Após esse tempo, o valor é multiplicado por 0,4, acrescentando mais R$ 400,00. O total do incentivo seria de R$ 1.200,00. Se a multa do FGTS for equivalente a R$ 800,00, esse valor será descontado dos R$ 1.200,00. Sobraria ao funcionário R$ 400,00 a título de incentivo. Se o valor da multa for igual ou superior aos R$ 1.200,00, o incentivo será igual a zero.


