Planejar orçamento é mais difícil nas classes baixas
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sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Fábio Galiotto <br> Reportagem Local 
O consumidor brasileiro, principalmente o de baixa renda, não guarda dinheiro antes de fazer uma compra, não faz planejamento de orçamento familiar e quase não presta atenção aos juros que paga. A pesquisa Mercados - Endividamento e Inadimplência, Mitos e Verdades, divulgada pela Boa Vista, administradora do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), mostra que 79% das pessoas das classes D e E e 63% da C não costumam aplicar sobras de receitas na poupança.
O número cai para 51% na classe B e para 44% na A, o que fomenta a justificativa de que o salário é insuficiente. Para 38% dos consumidores das classes C, D e E, 32% da B e 24% da A, seria possível fazer um pé-de-meia se os rendimentos mensais fossem maiores. Porém, consultores financeiros contestam e dizem que as pessoas ficam com as contas no vermelho por questão comportamental.
Tanto que o levantamento mostra que o consumidor de baixa renda não faz planejamento financeiro. ''Embora 50% dos consumidores das classes D e E e 58% da classe C afirmem que fazem planejamento financeiro, com algum tipo de controle entre o que ganham e o que gastam, ainda assim classificamos como verdade a afirmação de que as classes mais baixas não têm esse planejamento'', conta o diretor de Sustentabilidade da Boa Vista, Fernando Cosenza.
O consultor Thiago Terzoni diz que a própria afirmação do consumidor de que não consegue guardar já mostra endividamento. ''Primeiramente a pessoa compra e depois adequa todo o orçamento em torno das parcelas que terá de pagar.''
Conforme a Boa Vista, 43,4% das famílias estão endividadas hoje, número bem acima dos 18% de 2005. Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta que 35 milhões de pessoas tiveram acesso a crédito pela primeira vez nos últimos cinco anos, motivados por estabilidade monetária, queda no desemprego, aumento no rendimento real, baixa na taxa de juros e ampliação do prazo para os empréstimos. ''O aumento da oferta de crédito e do endividamento costumam ser proporcionais'', explica Terzoni.
Ele diz que a compra a prazo passou a ser um aprendizado para os brasileiros de baixa renda, mas faz um alerta. Para ele, não é o quanto se ganha, e sim o consumismo gerado pela oferta de crédito que atrapalha. ''Nos Estados Unidos, houve a bolha de crédito do setor imobiliário quando os americanos passaram a financiar mais do que poderiam pagar e passaram a perder imóveis para os bancos. Pode acontecer algo semelhante aqui se não houver cuidado'', previne o consultor.
O levantamento, feito com 1,3 mil pessoas, mostrou que o volume disponível de crédito no País atingiu 50% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2012, mais do que o dobro dos 24% de 2003.
Com juros
A falta de planejamento familiar para poupar antes de consumir reaparece quando se fala em pagar dívidas dentro do vencimento. Enquanto 48% das classes D e E e 45% da C sentem dificuldade em deixar as contas em dia, 38% da B e 15% da A sentem o mesmo problema. ''Dependendo da classe em que se encontra, a pessoa pode ter problemas para pagar pelas necessidades básicas, mas a regra geral não é assim'', conta o consultor financeiro e instrutor do Sebrae Euclides Nandes Correia.
Outra prova da falta de organização do orçamento é que as famílias não prestam atenção aos juros. O valor das parcelas do financiamento é prioridade para 30% e o número de prestações, para 15%. Apenas 22% considera os juros antes de fechar uma compra. ''Não só os juros, mas todas as taxas precisam ser consideradas como parte dos gastos do mês e as pessoas se esquecem disso quando fazem o planejamento de gastos'', conta Correia. (Com Agência Estado)



