Assessores do Palácio do Planalto negaram ontem à tarde que o governo esteja preparando um novo pacote econômico. O presidente Fernando Henrique Cardoso estaria convencido de que ‘‘é só ter paciência que o mercado se ajustará ao novo regime’’ (de câmbio flutuante). A idéia do governo é promover ajustes, sempre que necessário, para corrigir rumos, mas mantendo a regra básica de câmbio livre. Mas, por enquanto, a palavra plano não faz parte do dicionário do governo, de acordo com essas mesmas fontes.
Para o presidente, é fundamental que todos os passos a serem dados sejam muito esclarecidos, e manter a postura de não adotar medidas estrondosas, que assustem a comunidade financeira internacional e a população. Fernando Henrique tem dito que ‘‘nada será feito sem passar pelo Malan (ministro da Fazenda, Pedro Malan)’’, já confirmado diversas vezes no cargo. ‘‘O presidente não vai mais se dar ao trabalho de desmentir boatos sobre saída de Malan’’, disse ontem um importante assessor do presidente.
O presidente quer esclarecer à população como funciona o mecanismo de flutuação do câmbio, para que não haja sobressaltos a cada alta do dólar. ‘‘O câmbio livre veio para ficar’’, insistiu um assessor presidencial. Segundo ele, o governo vai tomar as medidas necessárias para impedir a volta da inflação, punindo especuladores e estando atento as movimentações bruscas do mercado.
Seguindo nesta direção, o Banco Central tem que manter o ‘‘sangue frio’’, mesmo que continue a haver evasão de dólares, como nos últimos dias. O presidente está convencido que logo esse quadro vai reverter e que a economia se estabilizará. Por isso, o governo não vai intervir.
Quanto à elevação dos preços, o presidente entende que o próprio mercado regulará isso. Quem aumentar os preços, assegura, não vai vender porque a população vai comprar no vizinho, que vende mais barato.
Esfriar botatos A tentativa do governo de reverter a crise de confiança que domina o País nas últimas semanas pretende contrapor a onda de boatos e suas consequências diretas nas decisões do mercado. Assessores da área econômica avaliam que o maior desafio a curto prazo é esfriar as especulações em torno de novas mudanças na política econômica que acabam gerando mais saída de dólares e inibindo o ingresso de recursos estrangeiros.
‘‘Um regime de câmbio livre e a ameaça de volta da inflação formam um terreno fértil para boatos inadmissíveis até menos de um mês atrás’’, afirmou uma fonte do Ministério da Fazenda. Nesse clima de instabilidade, acrescentou a mesma fonte, qualquer notícia, verdadeira ou não, influencia a taxa de câmbio. ‘‘Eleva a taxa quando a informação é ruim e reduz se for positiva’’, completou.
Autoridades da área econômica previram dias atrás que vai demorar em torno de um mês para o País estabilizar a taxa de câmbio no novo regime de livre flutuação, que substituiu o sistema antigo de bandas.
Outro fato que dificulta a ação do governo na administração das expectativas é a existência de muitas variáveis envolvidas em qualquer decisão de mudança de política econômica. Uma das principais é o acordo firmado recentemente com o Fundo Monetário Internacional (FMI). ‘‘Hoje o Brasil não tem liberdade total para arbitrar sua política econômica’’, afirmou a fonte da Fazenda.

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