PIB do Brasil só ganha do Haiti
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sexta-feira, 20 de outubro de 2006
João Sandrini<br> Folhapress 
São Paulo - Pelo segundo ano consecutivo, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil só deve crescer mais que o do Haiti entre os países da América Latina. O PIB é a soma das riquezas produzidas por um país. Segundo ranking de 19 países preparado pela consultoria Austin Rating a partir de dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), ligada à ONU e do Banco Central, se em 2006 o Brasil crescer 3% como prevêem em média as mais de 100 instituições financeiras consultadas para a elaboração do boletim Focus, só o Haiti, que continua em guerra civil, terá uma alta menor do PIB, de 2,3%.
Nesse cenário, o Brasil vai empatar com o Equador, que também crescerá 3%, e ficará atrás de países como Paraguai (3,5%), El Salvador (3,5%), Costa Rica (3,7%) e Bolívia (4,1%).
A situação é semelhante a do ano passado, quando o PIB brasileiro teve expansão de 2,3%, superou apenas o Haiti (1,8%) e ficou atrás de El Salvador (2,8%) e Paraguai (2,9%). O último ano em que o Brasil teve crescimento significativo foi 2004, de 4,9%.
Na média, a América Latina deve crescer 4,6% neste ano. A Argentina deve liderar o ranking com uma alta do PIB de 8%, após ter expansão de 9,2% no ano passado.
Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, os juros altos ainda são o principal entrave para a economia. Apesar de a Selic (taxa básica de juros) ser hoje a menor desde o início das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central em 1996, a taxa nominal de 13,75% ainda representa juros reais de mais de 9%, os maiores do mundo, devido à queda da inflação para patamares próximos a 3%.
''A inflação em abril já apontava para uma situação bem tranquila e o BC continuou a baixar de forma muito modesta a taxa de juros. Aí o investimento se concentrou no mercado financeiro, e esse é o grande erro da política econômica brasileira'', afirmou.
Ele também acredita que outros problemas pontuais atrapalharam a economia, como a parada de sete plataformas da Petrobras no segundo trimestre, a greve da Receita Federal, os atentados do PCC e a Copa do Mundo.
Os juros, segundo Agostini, são um problema mais grave porque, além de levarem à redução dos investimentos públicos e privados no setor produtivo, também reduzem a cotação do dólar, que, por sua vez, baixa a rentabilidade das exportações.
Já Márcio Pochmann, professor do Instituto de Economia da Unicamp, afirmou que para ''salvar a década'' e o Brasil crescer entre 5% e 6% ao ano o próximo presidente terá obrigatoriamente que enfrentar o problema dos juros. Ele, no entanto, criticou o programa de governo dos dois candidatos a presidente, Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin, por não terem apresentado propostas concretas para a recuperação da capacidade de investimento do Estado e a melhora do perfil do gasto público.
Segundo reportagem publicada ontem pela Folha de S.Paulo, Lula, se reeleito, vai trabalhar para que o BC reduza a taxa de juros reais para 5% até o final de 2007. Agostini acredita que, caso a economia mundial continue a crescer sem turbulências, seria factível alcançar essa taxa apenas em 2008. Ele disse, no entanto, que nessas condições qualquer um dos dois candidatos trabalharia para adotar uma política mais desenvolvimentista.


