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PIB da indústria 'migra' do Sudeste e Paraná ganha participação

O Estado teve terceiro maior ganho de participação na produção industrial brasileira nos últimos dez anos

Mie Francine Chiba - Grupo Folha
Mie Francine Chiba - Grupo Folha

Em um movimento de desconcentração da produção industrial, a região Sudeste vem perdendo participação no PIB (Produto Interno Bruto) da indústria brasileira, enquanto a outras regiões, principalmente o Sul e o Nordeste, vêm aumentando sua fatia. O Paraná é o terceiro estado que mais ganhou participação entre os biênios 2007/2008 e 2017/2018.


 

Indústria gráfica foi uma das que tiveram maior incremento de participação produção industrial
Indústria gráfica foi uma das que tiveram maior incremento de participação produção industrial | Gustavo Carneiro
 


Neste período, a participação do Sudeste no PIB da indústria brasileira caiu 7,66 pontos percentuais. A região Sul, por outro lado, teve ganhos de 2,46 pontos percentuais, e o Nordeste de 2,06  e foram as regiões com maior crescimento. 


São Paulo continua sendo o maior produtor industrial, com 30,68% do valor adicionado da indústria total do País e 38,15% do valor adicionado da indústria da transformação. Mas teve a maior queda na participação do PIB industrial brasileiro (-2,88 pontos percentuais), seguido de Rio de Janeiro (-4,44).


Estados como Pará (1,41), Rio Grande do Sul (1,08), Paraná (1,05), Pernambuco (0,98) e Mato Grosso do Sul (0,90), por outro lado, se destacaram ao ganhar espaço na produção industrial brasileira. No biênio 2017/2018, o Paraná tinha a quarta maior participação no PIB da indústria (7,43%).


Segundo a CNI, o Paraná se destaca com uma fatia adicional importante da produção nacional dos setores de impressão e reprodução, produtos de madeira, veículos automotores e celulose e papel. 


São Paulo continua sendo o principal produtor de veículos automotores e se manteve responsável por 52% da produção nacional do setor. Paraná subiu do 3º para o 2º lugar (com 13,8% da produção nacional), ultrapassando Minas Gerais (com 9,7%). 


 

PIB da indústria 'migra' do Sudeste e Paraná ganha participação
FolhaArte
 


O setor de alimentos ainda é o mais importante para a formação do PIB paranaense, e corresponde a 13% de toda a produção industrial do Estado, diz Marcelo Alves, economista da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná). Mas a indústria automotiva vem logo em seguida, embora tenha enfrentado perdas de mais de 30% na produção em 2020.


"O setor automotivo, ao longo das últimas décadas, desde 1970 vem se desconcentrando, saindo de São Paulo e indo para outros estados. E o Estado que mais ganhou com essa saída foi o Paraná com a vinda da Volvo, Renault, Volks", comenta Alves. "A Renault fez uma série de investimentos no Paraná, de R$ 7 bilhões e acabou de anunciar mais R$ 1,1 bilhão na planta do Paraná, aumentando o nível de investimento. Obviamente que isso tem reflexo na participação da indústria do Paraná", ele completa.


INVESTIMENTOS BILIONÁRIOS

A participação de São Paulo na produção nacional de celulose e papel caiu de 50,3%, no biênio 2007-08, para 32,2%, em 2017-2018. Ainda assim, o Estado continua sendo o maior produtor. Paraná é o segundo, com 14,1% da produção nacional. O economista Marcelo Alves aponta os projetos Puma I e II, da Klabin, em Ortigueira (Campos Gerais), como os responsáveis por elevar a participação do Paraná no segmento. 


Recentemente, a Klabin anunciou um investimento adicional de R$ 2,6 bilhões no Projeto Puma II, para a instalação de uma máquina de papel-cartão, afirma Francisco Razzolini, diretor de Tecnologia Industrial, Inovação, Sustentabilidade e Projetos da Klabin. O projeto tem o objetivo de expandir a capacidade de produção da empresa no segmento de papéis para embalagem com a construção de duas máquinas de papel na Unidade Puma, em Ortigueira.


 

No total, a unidade Puma II da Klabin, em Ortigueira, recebeu investimento de R$ 12,9 bilhões
No total, a unidade Puma II da Klabin, em Ortigueira, recebeu investimento de R$ 12,9 bilhões | Divulgação/Klabin
 


O valor se soma a outro aporte anunciado pela empresa em 2019, resultando em R$12,9 bilhões de investimentos totais para o projeto no Estado em cinco anos (2019-2023), diz Razzolini. "O segmento de papéis para embalagens possui enorme potencial de crescimento e enxergamos no papel-cartão a possibilidade de gerar ainda mais valor à Companhia", ele acrescenta.


A nova máquina deve começar a operar no segundo trimestre de 2023 e deve fazer com que a companhia alcance uma capacidade instalada de produção de 4,6 milhões de toneladas anuais de celulose de mercado e papéis para embalagens. Deste total, 3,5 milhões serão produzidos no Paraná.


Entre 2014 e 2016, a Klabin também havia feito no Projeto Puma um investimento de R$ 8,5 bilhões, considerado até então o maior investimento privado da história do Paraná. A Unidade Puma possui capacidade anual de produção de 1,5 milhão de toneladas de celulose.


Razzolini cita ainda a aquisição da fábrica de embalagens Embalplan, em Rio Negro (Região Metropolitana de Curitiba), entre outros investimentos da empresa no Estado. A compra da fábrica, somada à aquisição de uma empresa de Manaus (AM), fez com que a Klabin aumentasse em 10% (70 mil toneladas) a sua capacidade produtiva de caixas de papelão ondulado por ano. 


"A Klabin possui uma parceria de longa data com o estado do Paraná, o crescimento sustentável sempre foi conjunto e possibilitou o alcance de muitos marcos históricos", diz o diretor. A história da empresa no Estado começou em 1946, com a aquisição de área florestal, que possibilitou a produção de papel em grande escala no Brasil com a inauguração da Unidade Monte Alegre, em Telêmaco Borba (Campos Gerais), conta. 


MODERNIZAÇÃO DO PARQUE GRÁFICO

No setor de impressão e reprodução, o economista da Fiep Marcelo Alves destaca que a indústria do Estado tem ampliado a participação com produtos inovadores, de alto valor agregado. "Temos grandes indústrias gráficas no Estado, das maiores em termos nacionais."


Um exemplo é a Midiograf, de Londrina. Com investimentos em tecnologia e a entrada em novos segmentos de mercado, a capacidade produtiva da indústria vem crescendo de 15% a 20% ao ano, afirma Edson Benvenho, diretor da empresa. Em 2019, a indústria entrou no segmento de embalagens, e esta área da empresa cresceu em torno de 45% em cerca de um ano e meio.


 

Midiograf entrou em um novo segmento de mercado e vem crescendo 15% a 20% ao ano
Midiograf entrou em um novo segmento de mercado e vem crescendo 15% a 20% ao ano | Gustavo Carneiro
 


Em 2012, a empresa também passou por um processo de modernização dos segmentos promocional e editorial, quando foi buscar tecnologia fora do País, conta Benvenho. "Agora abrimos mais um segmento, começamos a nos especializar e ganhar know how em embalagens em papel cartão."


Após buscar aporte para compra de equipamentos de produção de embalagens em papel cartão, agora a empresa busca fazer mais investimentos para passar a produzir caixas rígidas. "O investimento na área não parou ainda porque é um segmento muito promissor. Buscamos nichos de mercado onde ainda é muito interessante ser explorado", diz o diretor da Midiograf.


Benvenho, que também é presidente da Abigraf (Associação Brasileira da Indústria Gráfica) Regional Paraná e do Sigep (Sindicato das Indústrias Gráficas do Estado do Paraná), opina que o Estado ganha participação na indústria gráfica nacional devido à sua capacidade de se renovar constantemente. "O Paraná sempre buscou inovação para acompanhar as mudanças de mercado. Em dez anos, temos no Paraná uma indústria gráfica altamente tecnológica que não perde para nenhum estado e é ate superior ao nível nacional."


Devido à modernização do parque gráfico do Paraná, Benvenho afirma que grandes empresas que consumiam de indústrias do Sudeste passaram a buscar indústrias no Sul, devido aos custos mais baixos, parque tecnológico atualizado e modelo de gestão eficiente. "Aqui os custos acabam sendo em torno de 20 a 30% menores. Isso impacta no custo de produção." 


 

Com modernização do parque gráfico, Paraná vem atraindo clientes do Sudeste do País
Com modernização do parque gráfico, Paraná vem atraindo clientes do Sudeste do País | Gustavo Carneiro
 


Desempenho da indústria em nível nacional 'não é novidade' 

"Vejo com bons olhos os resultados. Não é nenhuma novidade, já havia uma tendência que isso acontecesse. O Paraná vem em um processo de atração de novos investimentos, seja de iniciativa do governo, seja da iniciativa privada", comenta Marcelo Alves, economista da Fiep.


Para ele, o aumento de custos de produção é o que tem causado o deslocamento do centro industrial do Sudeste para outras regiões do Brasil. "Aumento de custos de produção ligados a logística, a salário. Além disso tem o aumento dos custos de terrenos, dificuldade logística tanto relacionado a custo quanto deslocamento. Existe uma exaustão da região metropolitana que fez com que as indústrias procurassem outros centros."


O Paraná tem uma economia dinamizada, localização geográfica privilegiada, facilidade escoamento de produção e de recebimento de insumos e oferta de mão de obra, pondera Alves. "Uma indústria se instala onde existe condição para isso e o Estado do Paraná é um grande exemplo. Quando se tem centros já dinamizados como Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel, Ponta Grossa, isso facilita a atração de grandes investimentos. O Paraná teve um processo de atração de investimentos que visava dinamizar regiões ainda pouco industrializadas, mas empresas perduram em locais onde há facilidade de escoamento de produtos, recebimento de insumos, mão de obra. Fica a poucas horas de São Paulo e do Mercosul. Temos excelentes estradas que levam a estas regiões. Temos um nível ocupacional bastante satisfatório, espaços, terrenos suficientes para comportar empresas."


A vantagem desse movimento em direção ao Sul e ao Paraná é que, especialmente no setor automotivo, a vinda de uma indústria traz consigo empresas de toda a cadeia de fornecimento, reflete o economista. "Quando as montadoras se instalam, várias outras empresas se instalam. Isso cria um efeito multiplicativo positivo na renda."


A cada real produzido no setor agrícola, são gerados R$ 1,76 na economia. No setor de serviços, o valor gerado é de R$ 1,46. Já na indústria, o valor gerado sobe para R$ 2,40. "O efeito multiplicativo, a geração de renda da indústria faz com que a economia geral no seu entorno cresça mais que em outros segmentos", diz Alves. Por isso a importância de atrair investimentos ou grandes empresas na indústria, e de fomentar empresas locais, completa o Alves.  


FUTURO

Quando se olha para o cenário futuro, embora a pandemia tenha causado queda de 2,5% na indústria paranaense em 2020, a produção industrial paranaense foi a quarta maior do Brasil no ano passado. Em 2019, o Estado teve o melhor resultado dentre todas as federações. "Temos a indústria muito forte em setores específicos. Temos ótimas indústrias ligadas aos setores de carne, soja, automotivo de relevância nacional e internacional. Quando se olha para este cenário, percebe-se que a perspectiva para os próximos anos é positivo, que o Paraná vai continuar tendo relevância e a tendência é ganhar mais espaço."

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