Rio de Janeiro A economia estacionou no final do primeiro semestre deste ano, registrando crescimento de praticamente zero. Os dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam claramente o efeito prejudicial à atividade econômica das sucessivas crises que atingiram o Brasil desde o ano passado, como o racionamento de energia, a desaceleração americana e global, o atentado de 11 de setembro, o colapso argentino, a deterioração renovada no mercado financeiro americano e mundial neste ano e as incertezas eleitorais no Brasil.
Estas turbulências elevaram a taxa de juros paga pelas empresas (que oscila muito, no Brasil, em relação à taxa básica fixada pelo Banco Central) e afetaram negativamente a confiança dos empresários e consumidores.
O PIB brasileiro cresceu apenas 0,14% no primeiro semestre de 2002, quando se toma como base de comparação o mesmo período de 2001. No segundo trimestre de 2002, houve crescimento de 0,99% na comparação com o mesmo período do ano anterior, e de 0,61% em relação ao primeiro trimestre de 2001 (este segundo dado toma como base uma série do IBGE que elimina os fatores sazonais).
Um dado que mostra claramente a economia quase estacionada é a comparação entre os últimos quatro trimestres, e os quatro trimestres anteriores àquele período. Este dado é exatamente o que dá o crescimento anual do PIB, quando os quatro trimestres em questão se referem a um ano completo. Desta forma, este indicador mostra quanto o PIB teria crescido se o ano, hipoteticamente, terminasse no final de março (os quatro trimestres consecutivos até o primeiro trimestre deste ano) ou no final de junho (até o segundo trimestre deste ano).
Nos quatro trimestres até março, o PIB cresceu apenas 0,29%, e nos quatro trimestres até junho, 0,03%, praticamente zero. Apesar desta paralisia, a maior parte dos analistas prevê que o Brasil terá algum crescimento em 2002. Os mais pessimistas projetam algo próximo a 1% ou um pouco menos. Os otimistas apostam em ligeiramente mais que 1,5%.
A explicação para estas projeções é de natureza estatística. Como os dois últimos trimestres de 2001 foram de atividade econômica muito fraca, por causa do racionamento e da crise argentina, eles formam uma base de comparação bastante baixa para o segundo semestre de 2002.
Como explica Elson Telles, economista do Banco Boreal-Libra, projetar o crescimento econômico de 2002 virou agora um exercício de projetar o crescimento do segundo semestre, e dividir por dois. A razão é simples: o crescimento no primeiro semestre foi praticamente nulo. Neste exercício, pesam o quão ruim foi o segundo semestre de 2001 (que ajuda a ''melhorar'' o crescimento da segunda metade do ano atual, por comparação) e o quão ruim pode ser o segundo semestre de 2002.
Telles acha que o crescimento no segundo semestre de 2002 pode atingir 2%, e, portanto, a expansão do PIB em todo este ano deve ficar em torno de 1%. Juan Pedro Jensen, da Tendências, que prevê que o cenário econômico melhore bastante depois das eleições, prevê um crescimento de cerca de 3% no segundo semestre. Com isto, sua projeção para o acumulado do ano vai para 1,6%.
Construção Em termos setoriais, foi o mau desempenho da construção civil e dos serviços industriais de utilidade pública (energia elétrica e saneamento) que puxou para baixo o PIB do primeiro semestre (0,14% ante igual período do ano passado), segundo destacou o gerente do departamento de contas nacionais do IBGE, Roberto Olinto.
A construção civil apresentou queda de 7,3% no semestre, redução igual à apresentada pelos serviços industriais. A agricultura cresceu 4,51% no primeiro semestre de 2002, os serviços se expandiram 1,55% e a indústria caiu 1,78%. Olinto observou que, há vários trimestres, a agricultura vem se destacando como o setor mais dinâmico da economia, e evitando um desempenho ainda pior.

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