Rio de Janeiro - O fraco consumo das famílias e dos investimentos derrubou o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no ano passado. O recuo do PIB no primeiro ano do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi de 0,2%, o pior resultado desde 1992. O encolhimento da massa salarial e o crédito caro prejudicaram a demanda interna. Desta vez, nem o avanço das exportações conseguiu compensar o fraco desempenho doméstico.
Com o recuo da economia e o aumento da população, estimado em 1,3%, o PIB per capita caiu 1,5%, maior retrocesso em 11 anos. Os dados foram divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As informações mostram que a performance do ano passado fez o nível de consumo familiar voltar praticamente ao nível dos anos de 1998 e 1999. ''Foi um ano muito ruim, o que a meu ver pode ser debitado em grande parte ao excesso de conservadorismo da política macroeconômica em 2003'', disse o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Antonio Corrêa de Lacerda.
O gerente de contas nacionais do IBGE, Roberto Olinto, explica que o consumo familiar, considerado o ponto-chave do recuo da atividade, tem um peso ao redor de 60% dentro do PIB. A renda em baixa prejudicou a compra de bens não-duráveis, como alimentação e vestuário, e o crédito caro desestimulou a comercialização dos bens duráveis, como eletrodomésticos e automóveis. No ano passado, o consumo familiar encolheu 3,3%. Este recuo e o de 2002 (-0,4%) se sobrepuseram ao avanço de 3,8% e de 0,5% em 2000 e 2001, respectivamente.
Ainda no ano passado, os investimentos encolheram 6,6%, os gastos do governo avançaram 0,6%, as exportações cresceram 14,2% e as importações caíram 1,9%. O impacto positivo do setor externo para o PIB este ano (1,9 ponto), entretanto, foi anulado pela contribuição negativa da demanda interna (-2,1%). Por setores, a agropecuária avançou 5%, mas a indústria encolheu 1% e os serviços, -0,1%. Dentre os subsetores industriais, a única queda foi da construção civil (-8,6%). A indústria de transformação avançou 0,7%.
O resultado fechado do PIB no ano passado põe fim à sucessão de revisões e divergências sobre a evolução da economia no ano passado. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) previu um crescimento de 1,8% para 2003 no início do ano e teve de rever, para baixo, sua projeção três vezes, até chegar à estimativa de crescimento de 0,2%. Quando a previsão estava em 0,5%, chegou a ser contestado pelo ministro do Planejamento, Guido Mantega, que em setembro ainda defendia que o crescimento do País seria entre 0,8% e 1%.
Apesar do resultado do ano passado, economistas enxergam na performance isolada do último trimestre de 2003 indícios de que a recuperação econômica continua. De outubro a dezembro, o PIB do País avançou 1,5% sobre o trimestre anterior. Ao contrário do que ocorreu no resultado fechado no ano, o consumo das famílias avançou 1,6% e os investimentos cresceram 4% no último trimestre. Para o economista da Tendências Consultoria, Juan Jensen, levando em conta estes dados, o cenário da economia não está tão negativo.

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